sábado, 19 de julho de 2025

A prática zen é como se render à correnteza de um rio que leva à quietude do oceano.


Doka Sensei

terça-feira, 15 de julho de 2025

Ao preparar a comida, nunca considere os ingredientes de uma perspectiva comum, nem pense neles apenas com suas emoções. Mantenha uma atitude que busca construir grandes templos com vegetais comuns, que expõe o Dharma de Buda mesmo na mais insignificante atividade.


Dogen Zenji

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Dōgen rejeitou a visão linear de que primeiro se pratica e depois se alcança a iluminação. Em vez disso, ele afirma que praticar já é expressar a iluminação, e iluminar-se é praticar. Não existe um caminho no qual a prática seja apenas um meio para um fim (iluminação); ambos são simultâneos.

“Sentar-se em zazen é já estar iluminado como Buda.”

Essa ideia é radical: elimina o objetivo como meta futura e foca no aqui e agora.

Este é um dos textos mais influentes de Dōgen. Em Genjōkōan, ele diz que todas as coisas estão em constante expressão da realidade tal como ela é. Não há separação entre fenômeno e verdade última.

O termo “genjō” (現成) significa "manifestação/atualização", e "kōan" (公案) remete a um “caso público” – um paradoxo Zen que aponta para a verdade além da lógica.

Dōgen não vê kōan como enigmas intelectuais, mas como expressões vivas da realidade. A própria vida cotidiana é o kōan.

Dōgen desenvolve uma concepção revolucionária do tempo como inseparável do ser. Em seu fascículo Uji, ele declara:

Ser é tempo. Tempo é ser. O tempo não passa por nós, nós somos o tempo.”

O tempo não é linear ou exterior aos seres — todo ser é uma expressão temporal. Cada momento contém a eternidade, e cada ato cotidiano é a totalidade do ser-tempo.

Não se trata de "passar o tempo", mas de "ser tempo".

Dōgen usa o termo 無所得 (mushotoku) — “sem desejo de ganho”. Esse é um termo chave para o Zen:

Sentar-se sem buscar nada, sem esperar nada, sem tentar se tornar alguém — esse é o verdadeiro zazen.”

O zazen não serve para “melhorar” sua mente, a sua personalidade ou "melhorar" o que quer que seja.

O zazen é a expressão da mente já desperta, mesmo que você não perceba.

 Dōgen nos lembra:

“A flor se abre porque ela já é a abertura.”

Praticar não é uma escada. É uma floração constante do instante. Não se caminha para a iluminação — caminha-se como a iluminação.

Dogen rejeita a ideia tradicional de que se pratica a fim de alcançar a iluminação.

Para Dōgen, esse pensamento dualista é uma ilusão:

"Praticar o caminho é já ser o caminho. Iluminar-se não é resultado da prática — é sua expressão."

Para Dōgen, a impermanência não é uma negação da realidade, mas exatamente o que torna as coisas reais, preciosas e significativas.

“As flores caem mesmo que as amemos; as ervas crescem mesmo que não as desejemos.” (Genjōkōan)

Aqui, ele mostra que o apego e a aversão não mudam a realidade do fluxo. Mas é justamente esse fluxo que dá valor ao momento presente.

Diferente de escolas budistas que veem a impermanência como algo a ser “superado” ou “transcendido”, Dōgen afirma:

- Impermanência é a própria iluminação.

Não há um eu fixo, uma mente estática, um tempo congelado.

Para Dogen, não há "um eu vendo as coisas mudarem". A mudança é você, é o mundo, é o tempo. 

Se tudo é impermanente, isso não leva ao desinteresse — para Dōgen, é o contrário: a impermanência intensifica a urgência da prática.

Traz compaixão: cada encontro pode ser o último.

Traz respeito: cada objeto, momento, pessoa é único.

Assim, preparar arroz, caminhar, ouvir a chuva, sentar-se em silêncio — tudo se torna sagrado por ser passageiro

A Impermanência é consequência direta da vacuidade (śūnyatā):

Porque os fenômenos não têm essência fixa, eles estão em constante surgimento e cessação;

Mas esse fluxo não é caótico — é a dança da interdependência, da natureza búdica em movimento.

Dōgen rejeita o pensamento de que “algo está se perdendo”. Em vez disso, cada coisa surge e desaparece completamente, sem deixar restos ou faltar algo.

“O momento presente é completo. O passado já realizado é completo. O futuro que ainda não veio é completo.”

Não há “algo que muda”. Só há mudança.

E essa mudança é plena — é zazen, é dharma, é vida.

O Dharma se manifesta em cada elemento do mundo natural.

Dōgen elabora que a neve nas montanhas, o som da chuva, o voo de um corvo — tudo é ensinamento.

Mas não é um ensinamento “sobre” algo — é o próprio Buda se expressando na forma de pedra, neblina ou vento.

Esse ponto conecta-se à doutrina Mahāyāna de que “todas as formas são vacuidade”, e que toda vacuidade é forma

Para Dōgen, a natureza não é objeto de contemplação – é agente de sabedoria

A relação do praticante com a natureza, segundo Dōgen, não é estética ou espiritualista. A natureza não serve para "inspirar" prática — ela é a própria prática.

“As montanhas praticam.
As montanhas sentam-se em zazen.
As montanhas realizam o Caminho.”

No fascículo "Gyōji" do Shōbōgenzō, Dōgen afirma que a prática é ininterrupta, sem começo nem fim, e não depende de estados mentais, tempo histórico ou circunstâncias.

A prática não como meio, mas como fim em si mesma.

Para Dōgen, prática e realização são uma só coisa (修證一等 – shushō ittō).

"Gyōji não é o caminho para alcançar o despertar – é o próprio despertar em movimento."

Você não pratica para se iluminar; você se ilumina ao praticar, e isso acontece de novo a cada instante.


Na visão de Dōgen, a mente que é Buda é o aqui e agora completamente vivenciado.

Quando varremos o chão com atenção plena, isso é a mente-Buda.

Quando sentamos em zazen sem buscar nada, isso é a mente-Buda.

Quando comemos arroz com gratidão e presença, isso é a mente-Buda.

Dōgen está, como em muitos capítulos, reforçando o princípio de 修証一等 – shushō ittō: prática e realização são uma só coisa.

“A mente que pratica é a mente de Buda."

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Nirvana é a não-dualidade,  onde não há distinção entre largo e estreito, longo e curto,  certo e errado,  aparecer e desaparecer, eu e o outro. É a verdadeira realidade, o estar entre o tempo e o espaço. Ela não pode ser alcançada objetivamente.

É onde um é muitos, a parte é o todo, um momento é atemporal, a mortalidade é imortalidade. Experimentar o nirvana em meio ao fluxo do tempo,  das mudanças e da decadência é um milagre.  Para Dogen,  esse milagres podem acontecer a cada momento, pois cada momento na dualidade é inseparável da não-dualidade.


Kazuaki Tanahashi 

O caminho teoricamente pode ser amplo e ilimitado, mas ele é minucioso na prática.


Kazuaki Tanahashi