Manter uma mente que não se apega a nada.
Não há mente a manter.
eu
Amigos, gostaria de compartilhar com vocês como me sinto agora, dois dias após a passagem de nosso querido Thay. Não sou de compartilhar muita coisa a meu respeito, até porque não me considero especial a ponto de ter que dividir publicamente com frequência o que sinto, penso e acredito. Mas nesse momento falarei de mim apenas para chegar a quem realmente importa: nosso amado Thay.
Há dias vinha como que presentindo que sua passagem estava próxima. Por favor, não me refiro a premonição, ou algum tipo de percepção especial. Apenas a forte sensação de que meu mestre amado ia partir. Foi como se meu espírito estivesse sendo preparado para o que, eu sabia, estava prestes a acontecer.
Quando soube da passagem de Thay na noite de sexta feira, eu estava já recolhido, pronto para retomar a leitura que sempre faço antes de dormir. Quando soube da notícia não pude evitar as lágrimas (lágrimas essas que voltam agora, quando compartilho isso com vocês), e nem tentei evitá-las. Meu mestre, a pessoa mais doce que já vi, o ser mais íntegro que conheci, aquele que por diversas vezes me consolou, esclareceu e orientou nos momentos difíceis, e que me encantou, exemplificou, instruiu, esclareceu e maravilhou com sua doçura, poesias e, principalmente, exemplo, havia partido.
Por favor, entendam, e isso precisa ficar muito claro: não foi apenas "uma grande alma" que partiu. Um Buda esteve entre nós, um homem que personificou tudo aquilo que às vezes as notícias do dia a dia insistem em tentar nos fazer desacreditar: a força da doçura sobre a grosseria; o poder da compaixão sobre o egoísmo; a poesia que existe para quem tem olhos para ver, e não se perde na feiúra de algumas paisagens. Repito: nós tivemos a grande fortuna de ter conhecido um Buda!
Naquela noite não consegui ler, nada, nem mesmo algum trecho de um livro de Thay. Apenas chorei em silêncio, e também em silêncio decidi, naquele momento e com certeza inabalável, que a partir dali eu seria o aluno dedicado como jamais fui, por mais que tenha praticado. Decidi isso por mim, decidi em honra de Thay, e decidi por compaixão a todos aqueles a quem eu puder de alguma forma ser útil. E desde então como que uma clareza, uma atenção plena sem esforço, uma gratidão e compaixão e sentimento de unidade com tudi e todos está presente em mim. Essa é mais uma das maravilhas de nosso Thay: ser capaz de transformar, de dar força, mesmo depois de sua passagem. Sei que outros discípulos ao redor do mundo sentiram o mesmo, como que energizados e revigorados e fortes em suas práticas, em honra a nosso mestre querido.
E por isso, digo aqui que se alguém um dia puder ver em mim leveza, compaixão, doçura, e talvez alguma sabedoria... Se algum dia algumas dessas qualidades manifestarem-se em mim, eu possa afirmar com humildade, saudade e, acima de tudo, gratidão: " Por favor, acredite, o mérito não é meu, mas de meu mestre, o mais suave, doce e forte que viveu em nossa era: Thich Nhat Hanh."
🙏eu (23.01.2024)
Qualquer prática visando o despertar é ilusão.
Não há nada a fazer. E nenhum "não-fazer".
Nada a fazer, não ir a lugar nenhum.
eu
Se tentar capturar a Verdade, ela escorrerá por entre seus dedos. Se
tentar defini-la, catalogá-la, ela será como uma nuvem que se desfaz de ti e
tornará a surgir ali, numa forma diferente. Se sua atenção plena tiver algum
objetivo, mesmo que seja o de buscar a verdade, verá que o que chamamos de agora
também não pode ser encontrado. O agora
também não existe.
Nascer e morrer a cada momento, num movimento tão sutil que, ao fim, não haja um eu que nasça ou morra.
eu
Em abril de 2020 experimentei (não ‘eu’, pois não havia um ‘eu’ experimentando) a ausência de identificação com o
ego e o corpo como descrita pelos sábios. ‘Eu’ não fazia alguma coisa; havia apenas o fazer. ‘Eu’ não era testemunha dos fatos; havia apenas o testemunhar do que ocorria. Eu e tudo o mais éramos um.
Tudo era curiosamente... cômico. Testemunhando assim, do alto, com
amplitude, havia a percepção da tolice daquilo tudo. Nada, pois mais sério que
parecesse, realmente o era.
Esse estado durou poucos dias (dois? três?) e há uma profunda gratidão
por tê-lo vivido, mas também (o meu ‘eu’ sente) melancolia por não o sentir agora, pelo véu
de ilusões que permiti cobri-lo.
Devo evocar essa lembrança a cada manhã, antes de iniciar o dia. Antes
de meditar. A lembrança do que é ser tudo. E não ser nada. De ver do alto da montanha a relatividade e a
pequenez de tudo aquilo que julgamos achar tão importante. E que não é. Só tem
importância em nossa ilusão.
É preciso trazer essa pérola à lembrança. Sempre.
eu