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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Quando preparares uma sopa com alimentos comuns, não te sintas desgostoso nem a trates com descaso. Não te alegres apenas porque te deram alimentos superiores para uma refeição importante. Não há mais razão para te sentires atraído pelo sabor refinado de uma comida requintada do que para te sentires repelido pelo sabor de uma comida simples. Não sejas negligente apenas porque o alimento te parece inferior. Tua atitude em relação aos fenômenos não deve depender da qualidade deles. Uma pessoa que se deixa influenciar pela qualidade das coisas, o que muda seu comportamento ou sua maneira de falar conforme as circunstâncias, não é uma pessoa do Caminho.


Dogen Zenji 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Você não pode sentar ou dormir apenas em seu próprio território — você tem que sentar com miríades e miríades de seres. Nesse momento, o sentar nada mais é do que o puro sentido do funcionamento do universo, do cosmos. O funcionamento do universo aparece e o zazen torna-se um belo espelho límpido no qual todo o universo é refletido. Esse zazen está completamente liberado da atividade comum.


Dainin Katagiri 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Nós deveríamos cessar o trabalho intelectual de estudar e perseguir palavras e linguagem. Nós deveríamos aprender o passo de meia volta para virar a luz e refletir. Corpo e mente irão naturalmente desaparecer, e a fonte original irá se manifestar por si mesma diante de nós. Se nós queremos atingir a questão do inefável, nós devemos praticar a questão do inefável prontamente.


Dogen Zenji 

Agora, quando nós a pesquisamos, a verdade está originalmente toda ao redor; por que deveríamos nós confiar em prática e experiência? O veículo real existe naturalmente; por que deveríamos nós levar adiante grandes esforços? Ademais, todo o corpo transcende sujeira e poeira: quem poderia acreditar no sentido de varrer e polir²?

Em geral, nós não nos extraviamos do correto estado; de qual utilidade, então, os avanços do treinamento?

Entretanto, se existe um milésimo ou um centésimo de lacuna, a separação é tão grande como aquela entre céu e terra; e se um traço de desacordo surge, nós perdemos a mente em confusão³. Orgulhosos de nossa compreensão e ricamente dotados com a realização, nós obtemos estados especiais de insights; nós alcançamos a verdade; nós clarificamos a mente; nós adquirimos o zelo que perfura o céu; nós divagamos através de esferas intelectuais remotas, prosseguindo com a cabeça: e assim, nós temos perdido quase completamente o caminho vigoroso de deixar cair o corpo.


Dogen Zenji

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Dogen rejeitava a ideia de que a iluminação pertencia apenas ao silêncio da sala de meditação. No Gyoji, ele argumenta que o universo inteiro se move através de ações concretas. Quando um monge limpa o mosteiro, ele não está apenas limpando a poeira do chão; ele está limpando a poeira da própria mente universal. O trabalho manual é a expressão física do Gyoji — uma prática que nunca cessa e que sustenta o cosmos.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Se um momento do seu dia foi ruim (uma resposta atravessada, uma frustração no trabalho), lembre-se de Dogen: aquele momento já morreu. Você tem bilhões de novos momentos neutros e puros pela frente hoje para recomeçar do zero.

Para Dogen, a vida não é um bloco contínuo de tempo. Ela é uma sequência ultrarrápida de renascimentos instantâneos. Se você não está presente agora, você está perdendo milhões de oportunidades de despertar e manifestar a sua verdadeira natureza.


Momento após momento, todos nós surgimos do nada. Esta é a verdadeira alegria da vida.


Shunryu Suzuki 


sexta-feira, 5 de junho de 2026

O despertar deve ser atualizado a cada instante.


Para Dogen, o despertar não é um diploma que você obtém após anos de meditação e pendura na parede. Não é um estado permanente que, uma vez alcançado, permanece lá sem esforço. É uma ação contínua, uma chama que só existe enquanto há combustível e oxigênio no exato momento presente.
Essa visão transforma radicalmente a nossa relação com o cotidiano através de três pontos centrais:
1. A Iluminação é um Verbo, não um Substantivo
No Chan mais antigo, havia uma forte tendência a enxergar o Satori (despertar) como um evento de ruptura: você é uma pessoa comum e, após um estalo mental provocado por um Koan, torna-se um ser desperto.
Dogen inverte essa lógica. Para ele, o despertar não é algo que você tem, é algo que você faz.
  • Se você está presente, compassivo e atento enquanto escova os dentes, você é o Buda naquele segundo.
  • Se no segundo seguinte você se distrai, se irrita ou age com egoísmo, o Buda desapareceu.
O despertar, portanto, precisa ser atualizado (ou manifestado) a cada nova respiração.
2. O Tempo e o Ser são uma Coisa Só (Uji)
No seu famoso fascículo Uji (Tempo-Ser), Dogen explica que o tempo não é uma linha vazia por onde nós caminhamos. Nós somos o próprio tempo.
O momento de agora é a única realidade que existe. Por isso, a iluminação não pode ser guardada de ontem para hoje. O insight que você teve dez minutos atrás não serve para o agora; você precisa despertar novamente para este exato milésimo de segundo.
3. A Prática como Expressão, não como Meio
Isso explica por que a meditação de Dogen (Shikantaza) é "apenas sentar". Você não senta voltado para a parede para alcançar o despertar no futuro. O ato de sentar-se na postura correta, com a mente aberta e presente, já é o próprio Buda se atualizando naquele instante. A prática é a própria iluminação em movimento.
A Beleza dessa Abordagem
Essa perspectiva retira o Zen do campo do misticismo e o joga diretamente na realidade nua e crua da sua vida. Ela tira o peso de ter que buscar uma "experiência espiritual extraordinária" e coloca o sagrado nas coisas mais simples:
  • Atualizar o despertar ao ouvir atentamente alguém.
  • Atualizar o despertar ao sentir o peso do seu corpo na cadeira.
  • Atualizar o despertar ao perceber que a mente acelerou e, gentilmente, trazê-la de volta.

O Zen de Dogen é exigente porque não te dá trégua: a iluminação é sempre um compromisso com o agora, sem garantias para o próximo segundo.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Para Dogen, cada ato nosso deixa uma marca no tecido do universo.

Segundo Dogen, se você limpa a mesa pensando em terminar logo para ir fazer outra coisa, você dividiu a sua vida. Você transformou o presente em um obstáculo. Mas se você limpa a mesa com atenção plena, o ato de passar o pano é o próprio Buda limpando a mesa. O pano é Buda, a mesa é Buda, o gesto é Buda.


Segundo Dōgen, quando o ego diminui, a barreira entre "eu" e "o resto do mundo" cai. Você percebe que as montanhas, as árvores e os outros não estão separados de você.

Segundo Dogen, lavar pratos, cozinhar ou limpar o chão exige a mesma reverência que meditar no altar.

Cada objeto e cada momento merecem cuidado absoluto porque são sagrados em si mesmos.

domingo, 17 de maio de 2026

Versos do Shodoka:

A verdadeira natureza da ignorância é a natureza do Buda.

O corpo vazio e ilusório da ignorância é o corpo do dharma. 


Dogen escreveu:

Não há momento que não seja bom. Não há momento em que a natureza de Buda não se.manifeste diante dos nossos olhos.


Kodo Sawaki Roshi 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Segundo Dogen, a pessoa ou o eu não se torna “iluminado” porque não há um indivíduo separado para iluminar-se. Pelo contrário, o próprio universo já está perfeitamente iluminado e, como não somos diferentes do resto do universo, podemos participar disso a qualquer momento por meio da prática. Como tudo já está perfeito, já está iluminado, não descobrimos nosso próprio “despertar”. Em vez disso, expressamos continuamente o despertar perfeito de todo o universo. 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Todo e qualquer elemento do dharma é ele mesmo a realidade última. Mesmo uma única partícula é imóvel e não admite o menor deslize. O mundo inteiro, tal como é, é o que se chama Genjo koan.

Portanto, Genjo koan é a estrada do darma para o mundo inteiro. Discriminação e não discriminação são ambas Genjo koan. Dizer que não discriminação é Genjo koan, porque ele é o reino do darma da não dualidade, e que o mundo da discriminação não é, porque ele é a mente de medir o pensamento, não é Genjo koan.

Cada elemento do mundo discriminado é em si mesmo Genjo koan. 


Bokusan Nishiari 

Em resumo, no que diz respeito à delusão e à iluminação, as pessoas comuns tentam chegar à iluminação varrendo a delusão. Elas podem pensar que delusão é existência falsa e iluminação é existência verdadeira. O Genjo koan a que se refere aqui é diferente. Entre todos os seres, não existe uma única existência que seja um erro. Delusão é o Genjo koan da delusão. Não é que tenhamos iluminação excluindo a delusão. Iluminação é o Genjo koan da iluminação. Não é que escapamos da iluminação e caímos na delusão.


Bokusan Nishiari

Dogen nos convida a ser como um espelho: o espelho não sai correndo atrás das imagens para refleti-las; ele simplesmente permanece vazio e permite que as imagens venham e se mostrem. 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Em nossa experiência cotidiana de vida,  uma montanha não é uma xícara de chá, e nem uma montanha nem uma xícara de chá somos você e eu. A não é B, e nenhum dos dois é C ou D. No entanto, para Dogen, montanhas são montanhas e também xícaras de chá. Minúsculas xícaras de chá guardam grandes montanhas em si, e também o mundo inteiro e todo o tempo. As montanhas saciam nossa sede, as montanhas pregam o dharma, e as montanhas também são outras faces minha e sua. A montanha e todo o universo são verdadeiramente derramados e mantidos em cada gota de chá para ser provada, e estão contidos na própria xícara.  A xícara cabe em nossas mãos mas também é enorme,  sem limites, nela cabem a montanha e o universo inteiro. Todo o universo é enorme mas também cabe em nossas mãos. 


Jundo Cohen


sábado, 28 de fevereiro de 2026

A essência do ensinamento de Dogen é que devemos reverenciar profundamente tudo o que encontramos. Prajna [sabedoria] não é apenas praticar zazen e estudar o Dharma; o trabalho que fazemos e todas as nossas outras atividades também devem ser expressões de prajna. (...) A cada momento de cada dia e em cada fase da vida, tento ver as muitas pessoas, coisas e situações que encontro como minha própria vida e prática.


Shohaku Okumura

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Somos arrastados como nuvens através de nascimentos e mortes.

O caminho da ignorância e o caminho da iluminação, o percorremos sonhando.

Somente uma coisa permanece ainda na minha memória, inclusive depois de despertar:

o som da chuva que escutava uma noite no meu retiro de Fukakusa. 


Dōgen Zenji