O anoitecer cai sobre a montanha,
a névoa se dissipa no vale.
Sem possuir uma única coisa,
quão vasta e livre é a minha mente!
Chinul
Até mesmo a mais bela flor murcha e cai, e nuvens podem obscurecer a lua que brilha no céu. Você acha a brisa agradável quando está calor, mas quando a neve branca cai, seus dedos ficam azuis devido ao frio. Por trás de uma morte tranquila pode ter havido uma vida repleta de dor. Há sempre esse lado e aquele lado. Tudo se transforma, tudo muda, a primavera se transforma em verão, depois vem o outono e depois ainda, o inverno. Se estivemos presentes à essência das coisas comuns e não deixarmos envolver pelas ilusões, não haverá um dia sequer que não seja maravilhoso. E mesmo assim, deve-se praticar para sempre.
Soko Morinaga
O ponto crucial ao lidar com as dificuldades é não solidificá-las. Sejam doenças, obstáculos ou emoções, estamos sempre inclinados a considerá-los reais. Fixamo-nos em nossos problemas e começamos a atribuir-lhes grande importância, de modo que, eventualmente, eles parecem gigantescos e tomam conta de toda a nossa consciência. Apegar-se ao sofrimento dessa forma apenas intensifica nossa dor e desânimo. Em vez de solidificar nossos problemas, devemos nos lembrar de que estamos vivenciando um carma que, em algum momento, se esgotará. A situação problemática é apenas temporária e não possui uma realidade absoluta e permanente. É apenas uma manifestação em nossa mente que, como tudo o mais, é onírica e impermanente.
Lama Gendun Rinpoche
Olhando profundamente para a folha, com clareza, Sidarta viu a presença do sol e das estrelas - sem o sol, sem a luz e o calor, ela não existiria. Isso é assim porque aquilo é daquela maneira. Também viu na folha a presença das nuvens - sem nuvens não poderia haver chuva, e sem a chuva, a folha não poderia ser. Ele viu a terra, o tempo, o espaço e a mente - todos estavam ali presentes. Realmente, naquele exato momento, o universo inteiro existia naquela folha. A realidade da folha era um maravilhoso milagre.
Thich Nhat Hanh
Para Dōgen, a impermanência não é uma negação da realidade, mas exatamente o que torna as coisas reais, preciosas e significativas.
“As flores caem mesmo que as amemos; as ervas crescem mesmo que não as desejemos.” (Genjōkōan)
Aqui, ele mostra que o apego e a aversão não mudam a realidade do fluxo. Mas é justamente esse fluxo que dá valor ao momento presente.
Diferente de escolas budistas que veem a impermanência como algo a ser “superado” ou “transcendido”, Dōgen afirma:
- Impermanência é a própria iluminação.
Não há um eu fixo, uma mente estática, um tempo congelado.
Para Dogen, não há "um eu vendo as coisas mudarem". A mudança é você, é o mundo, é o tempo.
Se tudo é impermanente, isso não leva ao desinteresse — para Dōgen, é o contrário: a impermanência intensifica a urgência da prática.
Traz compaixão: cada encontro pode ser o último.
Traz respeito: cada objeto, momento, pessoa é único.
Assim, preparar arroz, caminhar, ouvir a chuva, sentar-se em silêncio — tudo se torna sagrado por ser passageiro
A Impermanência é consequência direta da vacuidade (śūnyatā):
Porque os fenômenos não têm essência fixa, eles estão em constante surgimento e cessação;
Mas esse fluxo não é caótico — é a dança da interdependência, da natureza búdica em movimento.
Dōgen rejeita o pensamento de que “algo está se perdendo”. Em vez disso, cada coisa surge e desaparece completamente, sem deixar restos ou faltar algo.
“O momento presente é completo. O passado já realizado é completo. O futuro que ainda não veio é completo.”
Não há “algo que muda”. Só há mudança.
E essa mudança é plena — é zazen, é dharma, é vida.
Nascer de novo a cada instante significa morrer a cada instante. Ser totalmente o que somos agora significa deixar de ser o que éramos há um segundo. Entretanto, nos apegamos ao que acreditamos que somos, e pretendemos continuar sendo o que somos.
O Zen significa ser o original em cada momento. Ser o original a cada instante significa morrer a cada instante".
Dokushô Villalba
Mais tarde o tenzo visitou Dogen, e esse lhe perguntou: " O que são palavras?" O tenzo respondeu, "Um, dois, três, quatro, cinco." Essa resposta significa encher a vida de acessórios para torná-la significativa ao invés de encarar a verdadeira natureza do tempo, onde não há conceitos, ideias, nada a dizer. O tenzo estava dizendo à Dogen: Veja como você enche a sua vida de acessórios!
Dogen então perguntou, "O que é a prática?" E o velho monge respondeu, "Nada está oculto no universo." Isso significa que você pode tocar a essência de sua vida, que está sempre presente, antes mesmo de você criar qualquer conceito ou ideia a respeito dela.
Dainin Katagiri
A prática-realização é baseada na atualização de nossa interconexão com toda a vida. Nossa prática é sobre realinhar nosso comportamento para refletir a verdade da interconexão, não apenas da perspectiva do eu, mas também da perspectiva da totalidade de cada coisa surgindo simultaneamente neste momento. Dogen comenta em "Gyoji" (Prática Contínua):
'Quando a prática contínua que se manifesta é uma prática verdadeiramente contínua, você pode não estar ciente de quais circunstâncias estão por trás dela, e as razões pelas quais você não as nota é que entender tal coisa não é tão especial.'
Shinshu Roberts
Dormi apenas três horas, lábios inchados e ressecados, mas meu coração está leve.
Despertei às 4:30, e num sopro, o dia virou noite.
Mas na imersão profunda há somente uma serena alegria - sem o peso dos pensamentos inquietos.
Passo a passo, um pé de cada vez. Se eu me perder, começo de novo
ahimsa dana
A sabedoria transcendente, segundo o budismo, é aquela que vê todas as coisas, sejam mundanas ou metafísicas, nem como permanentes e nem como não-permanentes, nem como puras e nem como impuras, nem possuindo um self e nem desprovidas de self: ela vê tudo como inconcebível e inexpremível. Enquanto as sabedorias mundana e metafísica se apegam a determinados pontos-de-vista (visões), e consequentemente, à “conhecimentos”, a sabedoria transcedente permanece livre dessas visões porque é baseada na realidade de que todos os fenômenos, todos os seres, tudo, não possui qualquer existência independente. Por isso, nada pode ser caracterizado como permanente, puro ou possuindo um self. E nada pode ser caracterizado como impermanente, impuro ou desprovido de self. Não há nada, absolutamente nada, a que possamos apontar e classificar de alguma forma.
Red Pine (em “The Heart Sutra”)