quarta-feira, 7 de outubro de 2026

 

A Visão Tradicional (O Dualismo)


Antes de Dogen, a expressão "flores no céu" vinha de uma antiga metáfora médica indiana. Imagine uma pessoa com uma doença nos olhos (como catarata ou moscas volantes) que olha para o céu azul e enxerga pontos flutuantes, formas e cores que parecem flores.

• Para o budismo tradicional inicial, o céu limpo representava a realidade última/iluminação e as flores flutuantes representavam a ilusão/delírio.

• A lógica era simples: cure os olhos (atinja a iluminação), as flores falsas desaparecerão e você verá apenas o céu verdadeiro.


A Quebra de Paradigma de Dogen (A Não-Dualidade)


Dogen rejeita essa visão por considerá-la dualista. Se você diz que o céu é real e as flores são falsas, você está dividindo o universo em dois. No fascículo Kuko, ele subverte o ensinamento através de três argumentos centrais:


1. As Flores e o Céu são Inseparáveis


Dogen argumenta que não existe um "céu vazio" isolado das flores. Onde haveria um céu se não houvesse fenômenos para preenchê-lo? Ele escreve que as flores no céu não são uma ilusão que surge no céu, mas sim a própria atividade e expressão do céu. Tentar encontrar a iluminação rejeitando o mundo cotidiano é como tentar encontrar o oceano rejeitando as ondas.


2. Quem tem os "Olhos Doentes"?


Na visão comum, a doença nos olhos é um defeito. Dogen inverte isso: os "olhos doentes" são, na verdade, os olhos humanos manifestando a vida. Estar vivo, ter desejos, passar pelo nascimento, velhice, doença e morte é a nossa condição. A iluminação não consiste em se tornar um ser anestesiado ou um céu perfeitamente vazio e sem vida. Consiste em perceber que a própria "doença" (a nossa existência humana e senciente) é o palco onde a iluminação acontece.


3. A Impermanência é a Própria Realidade


Para Dogen, tudo o que o budismo antigo chamava de "ilusão" por ser impermanente — as nossas emoções, as estações do ano, as flores que murcham, os pensamentos que passam — é a verdadeira natureza da realidade. As flores no céu flutuam, mudam e desaparecem. É justamente essa impermanência e constante transformação que Dogen chama de A Flor de Lótus da Lei Maravilhosa.


O Impacto Prático no Dia a Dia


Ao quebrar a barreira entre ilusão e realidade, o fascículo Kuko traz uma tremenda libertação prática:

• Fim da busca por um ideal místico: Você não precisa escapar da sua mente barulhenta, do seu trabalho ou dos seus problemas para encontrar o sagrado.

• O cotidiano é o Buda: A sua vida confusa, com seus altos e baixos (as flores flutuantes), não é um obstáculo para a iluminação; ela é a própria iluminação se expressando de forma dinâmica. O erro não é ver as flores no céu, o erro é se apegar a elas ou tentar ignorá-las.

Essa desconstrução de Dogen muda completamente a forma como encaramos nossos próprios erros e crises cotidianas. 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Do apego, surge a necessidade de continuar existindo, a ilusão de recriar  nossa própria individualidade  como algo concreto. E disso, surge o nascimento. Do nascimento, surgem a velhice e a morte.


Denshô Quintero

Não tente se tornar nada. Não se transforme em nada. Não seja um meditador. Não busque a iluminação. Quando se sentar, deixe estar. Quando caminhar, deixe estar. Não se agarre a nada. Não resista a nada.


Ajahn Chah 

Ajahn Chah usava a metáfora de uma xícara de vidro para ensinar o não-eu (Anatta). Ele dizia: "Para mim, este copo já está quebrado. Como sei que ele inevitavelmente vai quebrar um dia, eu aproveito ele agora, mas não me apego a ele como uma propriedade fixa".

Ele aplicava isso ao ego. Nós sofremos porque tentamos segurar o "eu" como se ele fosse permanente. Quando entendemos que o "eu" é mutável e flui junto com o ambiente, paramos de lutar contra o mundo. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

De algum modo, o sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que encontra um sentido — como o sentido de um sacrifício. Certamente que não foi uma terapia no sentido próprio da palavra, visto que, em primeiro lugar, o seu desespero não era uma doença, e em segundo lugar, eu não podia mudar o seu destino, não podia ressuscitar a mulher. Mas, naquele momento exato, consegui alterar a sua atitude em relação ao seu destino imutável. A partir desse dia, ele pôde, pelo menos, ver um sentido no seu sofrimento.

Pertence aos postulados fundamentais da logoterapia que a principal preocupação do homem não é encontrar o prazer ou evitar a dor, mas sim encontrar um sentido para a sua vida. E é por isso que o homem está disposto até a sofrer, na condição, evidentemente, de que o seu sofrimento tenha um sentido.


Viktor Frankl 

Certa vez, um clínico geral de mais idade veio consultar-me por causa de uma depressão muito profunda. Ele não conseguia superar a perda de sua mulher, que falecera fazia dois anos e a qual ele amara acima de tudo. Bem, como poderia eu ajudá-lo? O que deveria dizer-lhe?

Pois bem, abstive-me de lhe dizer fosse o que fosse, confrontando-o, antes, com uma questão:

— Diga-me, doutor, o que teria acontecido se tivesse sido o senhor a morrer primeiro e a sua esposa a sobreviver-lhe?

— Oh — disse ele —, para ela teria sido terrível; teria sofrido imenso!

Ao que repliquei:

— Pois bem, doutor, esse sofrimento foi-lhe poupado, e foi o senhor que a poupou a esse sofrimento; mas agora tem que pagar por isso, sobrevivendo-lhe e chorando a sua falta.

Ele não disse uma palavra, limitou-se a apertar-me a mão e retirou-se calmamente.


Viktor Frankl 

Segundo Viktor Frankl, os três pilares básicos da logoterapia (frequentemente chamados de a "tríade fundamental" ou pressupostos básicos) são:

  • A liberdade da vontade: O ser humano não é totalmente determinado por seus genes, instintos ou ambiente. Embora existam limitações biológicas, psicológicas e sociais, o homem sempre mantém a liberdade de escolher sua atitude diante de qualquer circunstância.
  • A vontade de sentido: É a principal força motivacional do ser humano. Frankl discordava de Freud (busca pelo prazer) e de Adler (busca pelo poder), defendendo que o que o ser humano mais deseja profundamente é encontrar um significado e um propósito para a sua existência.
  • O sentido da vida: A vida tem um sentido inerente e incondicional, que não se extingue sob nenhuma circunstância, mesmo no sofrimento ou na dor. Esse sentido é objetivo e cabe ao indivíduo descobri-lo no mundo, e não inventá-lo de forma puramente subjetiva.
De acordo com Frankl, descobrimos esse sentido por meio de três caminhos: realizando uma obra ou trabalho (valores criativos), vivenciando algo ou amando alguém (valores vivenciais) e pela atitude que adotamos diante de um sofrimento inevitável (valores de atitude).

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Fundamentalmente, podemos caminhar em qualquer direção: leste, oeste, sul ou norte, como quisermos.


Todas e cada uma de nossas atividades impregnam o mundo inteiro das dez direções. 


Simplesmente praticamos manifestar a eternidade através de nossa ação em cada momento.


Kodo Sawaki Roshi 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Como você sabe que a sua própria consciência é inerentemente pura?... Para usar o sol brilhante como metáfora: mesmo que as nuvens e as névoas do mundo surgissem juntas em todas as direções de modo que o mundo ficasse escuro, ainda assim, como o sol poderia ser extinto?... A luz do sol não é destruída, mas meramente desviada pelas nuvens e névoas. A mente pura que todos os seres sencientes possuem é assim – simplesmente coberta pelas camadas de nuvens do pensamento discriminativo, ideias falsas e visões atribuídas. Se você apenas mantiver distintamente a consciência da mente clara presente e não fabricar pensamentos falsos, então o sol-da-realidade do nirvana se manifestará naturalmente. É assim que você pode experienciar que a sua própria mente é inerentemente pura.


Daman Hongren (601 - 674)

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Minhas atividades diárias não são extraordinárias,

Eu apenas permaneço em harmonia com elas.

Não prendendo nada, não rejeitando nada,

Em nenhum lugar há obstáculos ou conflitos.

Quem diz que a riqueza importa?

Até uma lasca de poeira tem grande valor.

Minha força sobrenatural e atividade milagrosa:

Buscar água e carregar lenha


Layman P'ang

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Quando abandonamos nossa motivação egocêntrica e permitimos que todas as coisas venham ao nosso encontro para realizar a prática, isso é realização. Isso significa que não podemos praticar sozinhos; o sujeito da prática não é alguém em particular, são todas as coisas realizando a prática/realização através do corpo e mente do indivíduo. Isso é abandonar o corpo e a mente. Abandonar corpo e mente significa que participamos com todo o universo enquanto ele pratica através dos nossos corpos e mentes individuais. Nos estabelecemos pacificamente dentro da rede de originação interdependente e permitimos que a força vital universal pratique através de nós para todos os seres.


Shohaku Okumura 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Para ser generoso, nada há a fazer, a não ser parar de se fixar em si mesmo.

Em termos de moralidade, nada há a fazer, a não ser parar de ser desonesto.

Para ter paciência, nada mais resta a fazer, a não ser não temer o que é, em última análise, verdade.

Para se esforçar, nada mais há a fazer, a não ser praticar continuamente.

Para alcançar estabilidade meditativa, nada mais a fazer, senão repousar na presença.


Milarepa 1052-1135 

Cada um de nós deve preencher todo o universo neste exato momento, imediatamente, completamente, no lugar onde está.

Prática significa tornar o paraíso onde você está, descobrindo o reino celestial sob seus pés.


Kodo Sawaki Roshi

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Canção da Cabana Coberta de Relva (Soanka)


Construí uma cabana coberta de relva onde não há nada de valor.

Depois de comer, eu relaxo e tiro uma soneca.

Quando foi construída, as pessoas da vila surgiram;

Agora que está pronta, ninguém mais aparece.


O interior é perfeitamente limpo, sem um único ponto de poeira.

Portas e janelas estão escancaradas, o ar circula livremente.

Mesmo que o mundo inteiro se incendeie, ela não será destruída;

Mesmo que os ventos da ilusão soprem, ela permanece firme.


Quem vive aqui não pertence ao norte nem ao sul,

Nem ao leste ou ao oeste; não se prende a direções.

Nenhum palácio imperial pode se comparar a esta cabana;

Nenhum manto de seda vale o pano que cobre este corpo.


As pessoas olham para mim e acham que sou um tolo,

Mas eu apenas sigo o meu próprio caminho.

Não busco o sagrado e não fujo do profano;

Não me apego aos desejos e não procuro a pureza.


O pequeno espaço desta cabana contém o universo inteiro.

Em um único metro quadrado, o Cosmos se manifesta.

Se você deseja compreender o mistério da mente,

Não procure em outro lugar, veja a realidade diante de você.


Não se mude para as montanhas procurando a paz,

Se a sua mente continua agitada e cheia de desejos.

Se você puder esquecer o seu pequeno "eu" agora mesmo,

Esta cabana de relva será o seu lar eterno.


Sekito