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sábado, 27 de maio de 2023

É possível viver sem lutar com a vida. Por que ir contra a vida se podemos ir a seu favor? Por que ver a vida como um ato de combate, e não como um ato de amor? Basta um ano de meditação perseverante, ou meio ano até, para perceber que é possível viver de outro jeito. A meditação racha a estrutura de nossa personalidade até que, de tanto meditar, a fenda se alarga e a velha personalidade se quebra e, como uma flor, começa a nascer uma nova. Meditar é assistir a esse fascinante processo de morte e renascimento.


Pablo D'Ors 

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Imagine por um momento o que mais deseja, e imagine também que não o consegue. Pois bem, você pode ser feliz sem consegui-lo: isso é o que a meditação nos dá. A frustração pode ser elaborada criativamente, sem resignação. Todos nós podemos desejar coisas, mas cientes de que nossa realização humana não depende de consegui-las. Na realidade, vamos compreendendo que sempre acontece o que tem que acontecer. O que acontece é sempre o melhor que poderia ter acontecido. O devir é muito mais sábio que nossas ideias ou planos. Pensar o contrário é um erro de perspectiva e a principal causa de nosso sofrimento e infelicidade. Só sofremos porque pensamos que as coisas deveriam ser de outra maneira. Assim que abandonamos essa pretensão, deixamos de sofrer. Assim que deixamos de impor nossos esquemas à realidade, ela deixa de se mostrar adversa ou propensa e começa a se manifestar como é, sem esse padrão valorativo que nos impede de acessá-la. O caminho da meditação é, portanto, o do desapego, da ruptura dos esquemas mentais ou preconceitos: é ir se despindo até que comprovamos que estamos muito melhor nus.


Pablo D'Ors 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Para sentar-se para meditar é preciso ter uma extraordinária humildade, ou seja, estar disposto a abandonar os ideais e as ideias e tocar a realidade. Meditar ajuda a não levar a si mesmo tão a sério (uma escola de saudável relativização de si mesmo) e exige muita paciência, constância e determinação. E mais paciência, constância e determinação se adquirirão quanto mais nos sentarmos para meditar.


Pablo D'Ors 

domingo, 7 de maio de 2023

Meditar é, para mim, estar comigo, e, quando não medito, não sei de verdade onde estou. Não se trata fundamentalmente de ser mais feliz ou melhor – o que é uma consequência –, e sim de ser quem se é. Estamos bem com o que somos – isso é o que devemos compreender. Ver que estamos bem como estamos – isso é despertar.


Pablo D'Ors 

sábado, 6 de maio de 2023

Sempre estamos buscando soluções. Nunca aprendemos que não há solução. Nossas soluções são só remendos, e assim seguimos pela vida: de remendo em remendo. Mas, se não há solução, a lógica diz que também não há problema. Ou que o problema e a solução são a mesma e única coisa. Por isso, o melhor que se pode fazer quando se tem um problema é vivê-lo.


Pablo D'Ors 

domingo, 30 de abril de 2023

É preciso ter uma fé enorme para sentar-se em silêncio e quietude! Exato: tudo é questão de fé. Se acreditarmos em sentar-nos para meditar, mais acreditaremos em nos sentar com esse fim. De modo que eu poderia dizer que medito para ter fé na meditação.


Pablo D'Ors 

sexta-feira, 21 de abril de 2023

A meditação é uma disciplina para aumentar a confiança. A pessoa se senta e faz o quê? Confia. A meditação é a prática da espera. Mas o que esperamos? Nada e tudo. Se esperássemos algo específico, essa espera não teria valor, pois seria alentada pelo desejo de algo de que carecemos. Por ser não utilitária ou gratuita, essa espera ou confiança se transforma em algo pura e genuinamente espiritual.


Pablo D'Ors 

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Um buscador, um explorador dos abismos do interior, não o é só quando se senta para meditar, e sim sempre. A qualidade da meditação se verifica na vida em si – essa é a mesa de testes. Por isso, nenhuma meditação deveria ser julgada pelo modo como nos sentimos nela, e sim pelos frutos que dá. Mais ainda: meditação e vida devem tender a ser a mesma coisa. Medito para que minha vida seja meditação; vivo para que minha meditação seja vida. Não aspiro a contemplar, e sim a ser contemplativo, que é ser sem ansiar.


Pablo D'Ors 

terça-feira, 18 de abril de 2023

Despertar é descobrir que estamos em uma prisão. Mas despertar é também descobrir que essa prisão não tem grades e que, a rigor, não é propriamente uma prisão. Por que passei a vida trancado em uma prisão que não é uma prisão? – começamos então a perguntar. E vamos até a porta. E saímos. Fazer meditação é esse momento em que saímos. É descobrir que a porta nunca esteve trancada por fora, que foi você quem a trancou com duas voltas de chave. Essa porta não existe, você a inventou. “A porta sem porta” é uma expressão tipicamente zen que me faz pensar que boa parte do que vivemos é puramente ilusória: o amor sem amor, a amizade sem amizade, a arte sem arte, a religião sem religião…


Pablo D'Ors 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Todo problema não é, no fim das contas, mais que uma ideia que eu tenho sobre determinadas situações. A situação – seja qual for – não é o problema; o problema é minha ideia sobre a situação. Quando abandono a ideia, o problema desaparece. Basta não ter ideias sobre as coisas ou situações para viver completamente feliz. A fórmula é aceitar as coisas como são, não como gostaríamos que fossem. Não devemos nadar contra a corrente da vida, e sim a favor. Nem sequer devemos nadar. Basta abrir os braços e se deixar levar. Qualquer margem à qual essa corrente o leve é boa para você: isso é fé.


Pablo D'Ors 

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Caminhar atento, por exemplo, ou escovar os dentes atento: perceber o fluir da água, seu refrescante contato com as mãos, o modo como fecho a torneira, o tecido da toalha… Cada sensação, por mais mínima que pareça, é digna de ser explorada. A iluminação (isto é, essa luz que ocasionalmente se acende dentro de nós, ajudando-nos a compreender a vida) se esconde nos menores feitos e pode advir a qualquer momento e por qualquer circunstância.


Pablo D'Ors 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Todos os pensamentos e ideias nos afastam de nós mesmos. Você é o que resta quando seus pensamentos desaparecem.


Pablo D'Ors 

sábado, 1 de abril de 2023

Em essência, é isso que a meditação ensina: a mergulhar no que estamos fazendo. “Quando como, como; quando durmo, durmo”: dizem que foi assim que um grande mestre definiu o zen. Com esse espírito, não só gastamos menos energia no desenvolvimento de uma determinada atividade, como também saímos tonificados dela. O ser humano tem o potencial de se autorrecarregar na ação.


Pablo D'Ors 

quarta-feira, 29 de março de 2023

Olhando bem – e é nisso que a meditação nos educa –, tudo é sempre novo e diferente. Absolutamente nada é agora como há um instante. Participar dessa mudança contínua que chamamos de “vida”, ser uno com ela, é a única promessa sensata de felicidade. Por essa razão, para meditar não importa sentir-se bem ou mal, contente ou triste, esperançoso ou desiludido. Qualquer estado de ânimo que se tenha é o melhor possível nesse momento para meditar, e isso justamente porque é o que se tem. Graças à meditação, aprendemos a não querer ir a nenhum lugar diferente daquele em que estamos; queremos estar onde estamos, mas plenamente. Para explorá-lo. Para ver o que dá de si.


Pablo D'Ors 

quinta-feira, 23 de março de 2023

Hoje, sei que é conveniente deixar de ter experiências, sejam do tipo que forem, e limitar-se a viver: deixar que a vida se expresse tal qual é, e não a encher com os artifícios de nossas viagens ou leituras, relações ou paixões, espetáculos, entretenimentos, buscas… Todas as nossas experiências costumam competir com a vida, e quase sempre conseguem tirar-lhe o lugar, inclusive anulá-la. A verdadeira vida está por trás do que nós chamamos de vida. Não viajar, não ler, não falar… tudo isso é quase sempre melhor que o contrário para a descoberta da luz e da paz.


Pablo D'Ors

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Dar seus frutos



Você afirma que “viver é transformar-se no que se é”. Quando se sabe que alguém transformou-se no que é?

Quando uma macieira sabe que é uma macieira? Quando ela dá maçãs e alimenta as pessoas ao seu redor. Quando você sabe que sua vida está sendo o que tem que ser? Quando você está cumprindo aquilo para que veio. Quando você dá seus frutos, as pessoas comem esses frutos e você sente-se feliz porque as alimentou.


Pablo d’Ors



domingo, 16 de setembro de 2018

Capacidade de receber


É nossa ansiedade de viver que impede que a vida nos alcance, e é por isso que a capacidade de receber deve ser trabalhada. Temos um desejo muito intervencionista sobre a realidade e isso impede que ela expresse aquilo que é.


Pablo d’Ors

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A aventura de ser quem é



As pessoas que mais me interessam são aquelas que não se parecem com ninguém, porque fizeram a aventura de serem elas mesmas. Elas não se ajustam a nenhum padrão, mas fazem uma coisa muito estranha, que é escutar a si próprias. E fazem outra coisa ainda mais rara, que é obedecer a elas mesmas. E por fim mais uma coisa, essa, o máximo: transformam essa obediência e essa escuta em estilo de vida.


Pablo d’Ors



sábado, 1 de setembro de 2018

À deriva



Geralmente estou à deriva entre o que eu era antes de começar a meditar e o que sou agora, meditando. “À deriva” é a expressão exata: ás vezes aqui, meditando, ás vezes quem sabe onde, para onde minha incontáveis distrações tenham me levado. Sou então como um barco, porém mais um frágil barquinho que um sólido transatlântico. A ondas brincam comigo caprichosamente, porém à medida que vejo como elas vem e vão, começo a me transformar nessas mesmas ondas e a não saber o que há sido de meu pobre barquinho. Até que o encontro: Sim, aí está ele, digo a mim mesmo, à deriva. Cada vez que entro nesse barquinho, deixo de ser eu; cada vez que me lanço ao mar, me encontro.


Pablo D’Ors
(em “Biografía del Silencio”)



terça-feira, 31 de julho de 2018

Apenas abra seus braços e deixe-se ir



Bastar não ter idéias sobre as coisas ou situações para viver completamente feliz. A fórmula é aceitar as coisas como elas são, e não como gostaríamos que fossem. Não nade contra a corrente da vida, mas a favor delas. Você nem precisa nadar. Apenas abra seus braços e deixe-se ir. Qualquer margem para a qual essa corrente te leva é boa para você: essa é a fé. Você é seu principal obstáculo. Pare de se atrapalhar. Tire tudo do caminho e simplesmente comece a descobrir o mundo.


Pablo D’Ors
(em “Biografía del Silencio”)