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terça-feira, 16 de novembro de 2021

 

O medo e a ansiedade são os estados psicológicos dominantes da mente humana. Por trás do medo está um desejo constante de ter certeza. Temos medo do desconhecido. O desejo da mente por confirmação está enraizado em nosso medo da impermanência. O destemor é gerado quando você pode apreciar a incerteza, quando você tem fé na impossibilidade de esses componentes interconectados permanecerem estáticos e permanentes. Você se descobrirá, na verdade, preparando-se para o pior e, ao mesmo tempo, permitindo o melhor.

 

Dzongsar Khyentse Rinpoche

 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Por eu facilmente ficar chateado e agitado, isso mostra que não tenho a mente de renúncia. A mente de renúncia de certo modo é bem simples. Temos mente de renúncia quando compreendemos que tudo isso não é grande coisa. Alguém pisa em seu dedão, qual a grande coisa aí? Quanto mais nos acostumarmos com essa ideia, mais temos mente de renúncia.

A renúncia de algum modo tem essa conotação de abrir mão de algo. Mas é como o exemplo de uma miragem. Você não pode abrir mão da água porque não há nenhuma água; é só uma miragem. Além disso, você não precisa abrir mão de uma miragem porque qual é o sentido de abrir mão de uma miragem? A pessoa simplesmente só precisa saber que é uma miragem. Tal compreensão é uma grande renúncia.

A mente de renúncia não tem nada a ver com sacrifício. Como já mencionei, quando falamos sobre renúncia, de algum modo ficamos todos assustados porque pensamos que temos que abrir mão de alguns bens, algo valioso, algumas coisas importantes. Mas não há nada que seja importante; não há nada que solidamente exista. Tudo que você está abrindo mão é, na verdade, uma vaga identidade. Você compreende que isso não é verdadeiro, não é absoluto; é esse o modo e o porquê de desenvolver renúncia.

 

Dzongsar Khyentse Rinpoche



terça-feira, 3 de novembro de 2020


As pessoas não têm a iluminação como meta. Eles têm a meta de decorar esta vida.

No Ocidente, o Dharma também não é realmente dedicado à iluminação. Aqui, as pessoas praticam principalmente para se acalmarem, para se curarem, para relaxarem… para a assim chamada “automelhoria”.

O Buda não ensinou o Dharma para estes tipos de ganhos mundanos.

Se tivermos esse tipo de motivação, o budismo é um caminho que devemos evitar. O caminho budista é basicamente uma má notícia do ponto de vista do ego. Quanto mais praticamos e estudamos o budismo, mais chocante ele se torna para o nosso ego, mais ele irá contra o nosso egoísmo.

Então, devemos pensar muito cuidadosamente sobre o que é que nós queremos. Não é muito tarde, ainda podemos sair disso.


Dzongsar Khyentse Rinpoche

sábado, 12 de outubro de 2019


Nunca pense que você será capaz de resolver a sua vida praticando o dharma. O dharma não é terapia. Na verdade, ele é exatamente o oposto. O propósito do dharma é realmente sacudir a sua vida. Ele destina-se a virar a sua vida de cabeça para baixo. Se foi isso que você pediu, por que reclamar? Se, por outro lado, ele não está virando a sua vida de cabeça para baixo, o dharma não está funcionando. Esse tipo de dharma é apenas mais um desses métodos New Age; o dharma deve realmente perturbá-lo.


Dzongsar Khyentse Rinpoche

domingo, 6 de outubro de 2019


Aspire não apenas entender o Dharma intelectualmente, mas também compreendê-lo experiencialmente.

Aspire corporificar bodhicitta absoluta e relativa, e assim não apenas a sua boa aparência, conhecimento e influência política atrairão e magnetizarão os seres sencientes.

Aspire criar conexões com as pessoas, mesmo com aqueles que você vir só de relance, com uma camiseta de cores vivas em meio à multidão, que possam ter como resultado uma semente de Dharma plantada em suas mentes.

Aspire o contínuo florescimento do Budhadharma e reze para que surjam muitos grandes detentores do Dharma e que seus esforços para libertar todos os seres sencientes sejam livres de obstáculos.

Aspire que seu corpo, seu propósito, e todas as suas ideias e pensamentos, de uma forma ou de outra, tornem-se benéficos para os seres sencientes.

Aspire nunca renascer na família de um bilionário, porque essas circunstâncias fariam com que você tivesse uma visão de mundo cor-de-rosa e o privaria da riqueza de compreender o Dharma.

Ao mesmo tempo, aspire tornar-se presidente dos Estados Unidos, da China ou da Rússia, para que possa beneficiar habilmente seres sencientes com o poder que esse trabalho trouxer para você.

Aspire tornar-se uma prostituta em um decadente distrito da luz vermelha de uma grande cidade, e que a bodhicitta brote na mente de qualquer um com quem você tenha contato.

Aspire praticar o Dharma minuciosamente e completamente, e reze para que não fique sempre esperando o momento certo para começar a praticar.

Quando tiver tempo, vá para algum lugar calmo e pratique.

Aspire nunca adiar uma prática que você já conhece porque deseja obter um conhecimento mais intelectual do Dharma.

Aspire vivenciar a tristeza.

Aspire sempre tomar a direção certa, por mais ignorante que você possa ser.

Reze para que quando você correr atrás de desejos sem sentido, o objeto de seu desejo leve você a beneficiar os seres sencientes.

Quando perder a paciência, possa você se sentir constrangido com o seu comportamento e ganhar alguma realização.

Quando se sentir deprimido, possa a própria depressão ser a causa para você realizar a verdade.

E o mais importante de tudo, sempre aspire aspirar.


Dzongsar Khyentse Rinpoche

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O Darma não é uma terapia

Práticas budistas são técnicas que usamos para lidar com nosso auto-acariciamento habitual. Cada uma é projetada para atacar hábitos individuais até que a compulsão de se agarrar a um “eu” seja completamente erradicada. Então, embora uma prática possa parecer budista, se ela reforça o apego a si, na verdade é muito mais perigosa que qualquer prática abertamente não-budista.

O objetivo de um número excessivo de ensinamentos hoje em dia é fazer as pessoas “se sentirem bem”; alguns mestres budistas estão até começando a soar como apóstolos New Age. Suas palestras são inteiramente voltadas para validar as manifestações do ego e apoiar a “nobreza” de nossos sentimentos, coisas que não têm nada a ver com os ensinamentos que encontramos nas instruções essenciais.

Então, se você está preocupado apenas em sentir-se bem, será muito melhor receber uma massagem corporal completa ou ouvir alguma música enaltecedora, ou do tipo “viva a vida!”, do que receber ensinamentos do darma — que definitivamente não foram projetados para te animar. Pelo contrário, o darma foi tramado especificamente para expor suas falhas e fazer você sentir-se horrível.

Para Kongtrul Rinpoche, quando um praticante para de considerar uma grande coisa aquilo que costumava dar muito importância o tempo todo, esse é um sinal de que a prática do darma está dando frutos. Por exemplo, antes de se tornar um genuíno praticante, receber um elogio sobre seu cabelo iria te intoxicar de deleite, enquanto a mera sugestão de que ele estava um pouco menos que perfeito imediatamente te jogaria na espiral descendente da depressão.

Nem chegar a reagir em qualquer uma das situações é um sinal de que a prática está dando frutos e que você está se tornando um praticante autêntico do darma, e isso é muito melhor do que ter um milhão de elogios, sonhos encorajadores ou sensações de êxtase.

É um grande erro pressupor que praticar o darma irá nos ajudar a acalmar e a levar uma vida sem problemas; nada poderia estar mais distante da verdade. Darma não é uma terapia. É bem o oposto na verdade: o darma é algo sob medida para virar sua vida de cabeça para baixo — é justamente isso que você encomendou.

Então, quando sua vida sai completamente do planejado, por que você reclama? Se sua prática e sua vida não capotarem, esse é um sinal de que o que você está fazendo não está funcionando.

É isso que distingue o darma de métodos New Age envolvendo auras, relacionamentos, comunicação, bem-estar, a Criança Interior, ser um com o universo e abraçar árvores. Do ponto de vista do darma, tais interesses são os brinquedos de seres samsáricos — brinquedos que rapidamente nos entediam até a letargia.

Dzongsar Khyentse Rinpoche


segunda-feira, 24 de março de 2014

Preparando-se para o pior, permitindo-se o melhor

O destemor é gerado quando você é capaz de apreciar a incerteza, quando tem fé na impossibilidade de todos esses componentes interconectados permanecerem estáticos e permanentes.
 
Você se encontrará, de forma bem verdadeira, preparando-se para o pior ao mesmo tempo em que se permite o melhor. Torna-se digno e majestoso. Essas qualidades melhoram sua habilidade de trabalhar, guerrear ou fazer a paz, criar uma família e aproveitar as relações pessoais e amorosas.
 
Ao saber que algo está te esperando logo após a curva, ao aceitar que potencialidades incontáveis existem desse momento em diante, você adquire as habilidades do estado desperto penetrante e da presciência como as de um general talentoso, não paranóico, mas preparado.

Dzongsar Khyentse Rinpoche
(em "O Que Te Faz Ser Budista")

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A trama do ego

"O hábito nos torna fracos contra o “eu”. Mesmo hábitos simples são difíceis de serem eliminados.

Mas o hábito do eu não é um simples vício como fumar cigarros. Estamos viciados no eu desde tempos imemoriais. É como nos identificamos. É o que amamos com mais carinho. Também é o que odiamos mais duramente, às vezes.

Quase tudo que fazemos, pensamos ou temos, incluindo nosso caminho espiritual, é um meio para auto-afirmar sua existência. É o eu que teme o fracasso e deseja o sucesso, teme o inferno e deseja o paraíso.

O eu tem nojo do sofrimento e ama as causas do sofrimento. Ele estupidamente trava guerras em nome da paz. Deseja a iluminação mas detesta o caminho para a iluminação. Deseja trabalhar como socialista mas vive como capitalista. Quando o eu sente-se só, deseja amizade. Sua possessividade em relação a quem ama se manifesta em paixão que pode levar à agressão.

Seus supostos inimigos — como caminhos espirituais arquitetados para derrotar o ego — frequentemente são corrompidos e cooptados como aliados do eu. Sua habilidade em jogar o jogo do engano é quase perfeita. Ele tece um casulo em torno de si como um bicho da seda, mas diferentemente do bicho da seda, não sabe como encontrar a saída."

Dzongsar Khyentse Rinpoche
(em "O Que Faz Você  Ser Budista?")

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Humildade e Confiança

"Jigme Lingpa nos instruiu que, como praticantes, precisamos de duas coisas. Uma é humildade e a outra é confiança.

Quando você perde sua inspiração e pensa que é preguiçoso, que não tem devoção, então você deveria pensar: “O fato de que eu penso assim é bom, isso significa que eu estou considerando isso um problema”. Essa realização é um tipo de renúncia, ou pelo menos alimenta a renúncia. E pensar assim, tendo esse tipo de atitude, isso é confiança.

E então, de novo, às vezes devemos pensar: “O que estou praticando não é suficiente”. Na verdade, não apenas às vezes, na maior parte do tempo devemos pensar que o que estamos fazendo não é suficiente, temos que fazer mais. A purificação na qual estou engajado, a acumulação de mérito que estou praticando, não é suficiente. Nunca é suficiente. Essa é a prática da humildade. Então isso também é realmente importante."

Dzongsar Khyentse Rinpoche

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Sugestão para a meditação

"Toda vez que começamos a praticar, ajuda se não mergulharmos imediatamente. Em vez disso, separe alguns momentos para interromper sua corrente ordinária de pensamentos. Isso é relevante principalmente se você é muito ocupado e tem apenas cinco minutos para sua prática diária [...].

Suponha que bem antes de praticar você tenha uma briga com seu noivo. Isso provavelmente vai desencadear uma corrente de pensamentos sobre o que você quer dizer para seu parceiro. Se você começar sua prática no meio disso tudo, ela não vai funcionar muito bem. É por isso que ajuda colocar um ponto nessa corrente de pensamentos durante pelo menos algum tempo.

Descobri que isso é muito, muito útil. Há na verdade incontáveis métodos para interromper a corrente de pensamentos, mas para mim, antes de praticar, apenas sento por um tempo. Cada vez que um pensamento vem, tento pará-lo cultivando um sentimento de renúncia, e faço isso de novo e de novo.

Penso que agora tenho 40 anos e, se eu conseguir viver até os 80, resta apenas metade da minha vida. Penso que desses 40 anos, vou dormir o equivalente a 20 anos. Então, agora há apenas 12 horas por dia que podem ser chamadas de vida. Se então contarmos assistir um filme por dia, comer e fofocar, sobram cerca de 5 horas. De 40 anos, isso quer dizer que sobram oito, e a maior parte irá embora ao nos permitirmos a paranóia, ansiedade e tudo mais [...]. Na verdade, há muito pouco tempo para a prática!

Isso deve dar a vocês uma ideia de como interromper a cadeia de pensamentos. Não pule imediatamente para dentro da prática; em vez disso, apenas observe-se, veja sua vida, veja o que está fazendo. Se está praticando dez minutos por dia, você deveria tentar interromper a corrente por pelo menos dois ou três minutos.

Fazemos isso para transformar a mente, invocando um sentimento de renúncia. Quando pensamos “estou morrendo. Estou me aproximando da morte” e outras ideias do tipo, isso realmente ajuda."

Dzongsar Khyentse Rinpoche

domingo, 16 de setembro de 2012

Apenas dois dias de vida

“Quando começamos a compreender, não apenas intelectualmente mas emocionalmente, que todas as coisas compostas são impermanentes, então nosso apego diminui. A convicção de que nossas posses e pensamentos são valiosos, importantes e permanentes começa a se soltar.

Se fossemos avisados de que temos apenas dois dias de vida, nossas ações mudariam. Não ficaríamos preocupados em deixar os sapatos paralelos, em passar ferro na roupa íntima ou colecionar perfumes caros. Poderíamos ainda fazer compras, mas com uma nova atitude.

Se soubermos, mesmo só um pouco, que alguns de nossos conceitos, sentimentos e objetos familiares existem apenas como um sonho, desenvolvemos um senso de humor muito melhor. Reconhecer o humor em nossa situação evita o sofrimento.

Ainda vivenciamos as emoções, mas elas não podem mais nos pregar peças ou nos iludir. Ainda podemos nos apaixonar, mas sem medo de ser rejeitado. Iremos usar nosso melhor perfume e creme facial em vez de guardá-los para uma ocasião especial. Assim, todo dia se torna um dia especial.”

Dzongsar Khyentse Rinpoche
(em "O Que Faz Você Ser Budista?")

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Tudo é apenas sua criação

"Um escultor pode criar uma linda mulher com mármore, mas ele deve saber bem como não se apaixonar pela criação. Como Pigmalião com sua estátua de Galatéia, nós também criamos nossos amigos e inimigos, mas nos esquecemos que é assim. Devido à ausência do estado desperto em nós, nossas criações são transformadas em algo sólido e real, e vamos ficando cada vez mais enroscados. Quando você compreender por inteiro, não apenas intelectualmente, que tudo é apenas sua criação, você será livre."

Dzongsar Khyentse Rinpoche
(em "Que Faz Você Ser Budista?")