quarta-feira, 31 de outubro de 2012
As Cinco Lembranças
1. "Pertenço à natureza do envelhecimento; não há nenhum modo de escapar do envelhecimento."
2. “Pertenço à natureza das doenças; não há nenhum modo de escapar de sofrer alguma doença."
3. “Pertenço à natureza da morte; não há nenhum modo de escapar da morte."
4. “Tudo aquilo que me é querido e todos que amo pertencem à natureza da impermanência. Não há nenhum modo de evitar me separar deles algum dia."
5. "Minhas ações são meus únicos verdadeiros pertences. Eu não posso escapar às conseqüências de minhas ações. Minhas ações são o solo sobre o qual eu piso."
Buda
domingo, 28 de outubro de 2012
Tudo é real e tudo está certo
Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
(em "Poesia Completa de Alberto Caeiro")
sábado, 27 de outubro de 2012
Se eu morrer muito novo
Se eu morrer muito novo, ouçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava,
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
(em "Poesia Completa de Alberto Caeiro")
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Sentir a vida correr por mim
Oxalá a minha vida seja sempre isso:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
(em "Poesia Completa de Alberto Caeiro")
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
O lugar onde estamos
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
(em "Poesia Completa de Alberto Caeiro")
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
(em "Poesia Completa de Alberto Caeiro")
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Falsa noção do eu
Na maioria das vezes em que olhamos em volta, imediatamente vemos que nosso ambiente valida essas falsas identidades. Por isso, é um esforço desafiador desconstruir essa ilusão do eu. Sempre que olhamos no espelho podemos ter algum pensamento sobre nós mesmos. Cada um desses pensamentos aumenta o efeito. Eles se tornam os tijolos conceituais que usamos para continuar construindo o castelo ilusório do eu.
No entanto, há a suspeita de que essa noção do eu pode ser muito frágil e transitória; esse pensamento fica silenciosamente se esgueirando em algum lugar de nossa mente. Na maioria das vezes, essa suspeita não é trazida à luz da consciência, mas se for, uma sabedoria interior profunda surgirá certamente.
Nossa suspeita sobre a fragilidade dessa falsa noção do eu pode ir em duas direções. Em geral, ela se torna a fonte do medo, ansiedade e insegurança. Frequentemente vemos pessoas temerosas e excessivamente defensivas no que se refere às suas próprias identidades. Nós mesmos temos a tendência de nos amedrontar caso nossa identidade seja ameaçada. Mas em outras vezes a suspeita pode ir em outra direção. Quando isso acontece, pode acontecer uma revelação de mudar a vida, que nos leva para a realização do nível mais elevado da verdade.
Essa ideia não é nenhuma nova super-teoria. Trata-se de uma sabedoria imemorial que já foi realizada por muitas pessoas na história humana. O Buda ensinou essa sabedoria, e em sua tradição isso é chamado de “anatman” ou “não-eu”. Esse é o termo usado para indicar que uma pessoa desnudou essa falsa noção do eu. Ela percebeu que essa sensação é apenas uma identificação com os papéis representados na vida. É apenas uma máscara, não a verdade.
Anam Thubten
(em “No Self, No Problem")
Retirado do blog darma.info
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Esquecer de si mesmo
É difícil esquecer de si mesmo. A primeira coisa para superarmos esse problema é sentar em zazen. Uma vez sentados, não devemos deixar que nossa mente faça comentários.
Primeiro, sentamos para meditar. Mas para que? Para meditar sobre nós mesmos? Sobre nossa vida? Não. Sentamos em zazen para esquecer. Esquecer nosso passado e nosso futuro. Se treinarmos nossa mente para isso, começaremos a nos tornar livres. É por isso que fazemos zazen. Será difícil alguém aqui achar um sofrimento do qual não possa dizer, “vem do eu”. Qualquer sofrimento vem do eu, os sofrimentos dos outros que nos doem, vêm do eu, porque somos apegados a eles. O sofrimento do eu que se sente ofendido, vem da crença no eu. Tudo vem do eu, pois como temos um eu, ele pode ser ofendido, se não houvesse um eu, não poderia me sentir ofendido. Algumas coisas são fáceis, bem fáceis. Se esquecermos que as coisas são nossas, não tem problema que elas sejam danificadas, não é isso que é mais importante.
Monge Genshô
(em seu blog "O Pico da Montanha é onde estão os meus pés")
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Olhei para as coisas e mais nada
O que vale a minha vida? No fim (não sei que fim)
Um diz: ganhei trezentos contos,
Outro diz: tive três mil dias de glória,
Outro diz: estive bem com minha consciência e isso é bastante...
E eu, se lá aparecerem e me perguntarem o que fiz,
Direi: olhei para as coisas e mais nada.
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
(em "Poesia Completa de Alberto Caeiro")
domingo, 21 de outubro de 2012
Tudo que eu encontro é minha vida
Estou aqui somente porque meu mundo está aqui. Quando dei meu primeiro suspiro, o mundo nasceu comigo. Quando eu morrer, o mundo morrerá comigo. Em outras palavras, eu não nasci num mundo que já existia antes de mim, eu não vivo simplesmente como um indivíduo entre milhões de outros indivíduos, e eu não deixarei o mundo para trás quando partir.
As pessoas acreditam que pertencem a um grupo ou uma sociedade. Mas não é essa a maneira como vivemos realmente. Em realidade eu trago meu próprio mundo em minha existência, eu vivo nele, e o levarei comigo quando morrer.
É essencial perceber o self universal manifestando-se através de tudo no universo. Você vive junto com tudo em seu mundo. Somente quando compreender isso integralmente todas as coisas no mundo se manifestarão para você como o self que a tudo permeia.
"Tudo que eu encontro é minha vida."
Por isso nossa atitude fundamental deve ser "apenas fazer" ou "não fazer nada além disso". Não é uma questão de pensar sobre a vida. Pensar sobre a vida simplesmente não é suficiente. Nossa vida é o que quer que encontremos agora, e devemos simplesmente vivê-la.
Kosho Uchyiama
(em "Opening the Hand of Thought")
sábado, 20 de outubro de 2012
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Ambições por ilusões
Dentros de nós resta uma angústia, originária provavelmente da consciência humana da mortalidade. Por isso temos filhos, escrevemos livros, compomos sinfonias, plantamos árvores. Queremos imortalidade. Eis uma bela razão para as religiões sempre prometerem uma vida futura. Aqui, aprendendo sobre o budismo, vejo que Buda quis destruir também o desejo do ego se imortalizar. Demolir a raiz dessas ambições por ilusões.
Trabalhamos por quê? Provavelmente queremos satisfazer uma necessidade íntima, profunda, de dar significado à nossa existência. Aparentemente lutamos por bens materiais, sucessos emocionais, vitórias. Mas não é isso realmente. Desejamos preencher nossa existência com um sentido. Como não conseguimos assimilar a impermanência da vida humana, queremos dar a ela um significado que nos satisfaça. E se não são as religiões, com seus mitos de imortalidade, então são as obras que parecem sólidas, imortais, pirâmides. Tentamos agregar ao nosso eu essas coisas e realizações. Falhamos miseravelmente porque nos baseamos todo tempo no eu pessoal. O budismo está me ensinando que a maior realização é transcender esse eu.
Monge Genshô
(no livro "O Pico da Montanha é onde estão os meus pés")
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Uma, todas
Uma única natureza
contém todas as naturezas;
uma única existência
contém totalmente todas as existências.
Uma única Lua
se reflete em todas as águas;
todos os reflexos
da Lua na água
provêm de uma única Lua.
Yoka Daishi
(em "Shodoka - O Canto do Satori Imediato")
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
A vida é apenas um empréstimo
Não esqueçam que a vida pisca e então vocês morrem.
O que se junta deve se separar, então não briguem nem provoquem disputas.
O que é acumulado deve ser abandonado, então não anseiem descontroladamente por riqueza.
Agarrar-se é se aprisionar, então não cultivem o apego desenfreado.
O que nasce deve morrer, então pensem em sua próxima vida. […]
O que se junta deve se separar, então não briguem nem provoquem disputas.
O que é acumulado deve ser abandonado, então não anseiem descontroladamente por riqueza.
Agarrar-se é se aprisionar, então não cultivem o apego desenfreado.
O que nasce deve morrer, então pensem em sua próxima vida. […]
A vida é apenas um empréstimo, ninguém sabe quando não a teremos mais.
Aparências são ilusórias, compreendam sua impermanência.
Comida e riqueza são como gotas de orvalho, é incerto quando vão desaparecer. […]
Inimizade é ilusão, compreendam que isso é um erro.
Aparências são ilusórias, compreendam sua impermanência.
Comida e riqueza são como gotas de orvalho, é incerto quando vão desaparecer. […]
Inimizade é ilusão, compreendam que isso é um erro.
Padmasambhava (Sábio budista do Tibet - séc 8)
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Aquele que Ama Mais
Olhando as estrelas, sei por certo
Que, tanto faz, posso ir pro inferno,
Mas a indiferença da terra é o que de menos
A temer dentre homem e besta temos.
Como podemos gostar do brilho estelar
Se tão pouco em troca temos a dar?
Se as afeições não podem ser iguais,
Que seja eu aquele que ama mais.
Amante como penso ser
de estrelas que me são ausentes,
Não posso, agora eu sei, dizer
Perdi alguma totalmente.
E se minguar no céu todos os astros,
aprenderei a ver em seu espaço
da escuridão sublime glória,
mesmo que tal me acarrete mora.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Além das nuvens, o céu permanece azul
Frequentemente nos sentimos cobertos por escuras nuvens de ansiedade e tristeza, perseguidos por tempestades de raiva e ambição, alcançados por agonias e desesperos.
Contudo, essas tempestades em nossos pensamentos manifestam-se apenas numa camada muito fina da atmosfera. Essas turbulências mentais ocorrem somente em nossos pensamentos que anseiam sempre por satisfação. Porém, além dessas nuvens, o céu permanece azul e o sol está sempre brilhando. Quando conseguimos sentar imóveis como esse imenso céu, podemos ver e experienciar as tempestades de dor e tristeza sem sentirmo-nos sobrecarregados por elas.
O zazen é exatamente esse sentar nessa esfera de paz mental absoluta, semelhante ao vasto céu, no qual diversas nuvens de pensamentos vêm e vão.
Não importa quão sincera seja a nossa prática, dificuldade é sempre dificuldade. Mas mesmo assim, usufruímos de tranquilidade absoluta como o imperturbável céu, e não precisamos pensar em nossa vida em termos de difícil e fácil.”
Kosho Uchiyama
(em “Opening the Hand of Thought”)
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