sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Reflexões de Nietzsche (1)


"O que é ser livre? É não termos vergonha de ser quem somos."

"Desde que me cansei de procurar,
aprendi a encontrar;
Desde que o vento me opõe resistência,
velejo com todos os ventos."

"Muitas vezes consideramos uma idéia mais verdadeira apenas porque há qualquer coisa de muito belo e divino no ritmo e na forma métrica do seu enunciado."

  "O Veneno que mata as naturezas fracas é um fortificante para as fortes..e por isso não lhe chamam veneno.."

Friedrich Nietzsche
(em "A Gaia Ciência")

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Se você morresse hoje à noite, estaria preparado?

"Um dia em 1981, vendo o quanto eu estava absorvida enrolando pacotes para crianças famintas no Vietnã, Thay (Thich Nhat Hanh) me perguntou: “Se você morresse hoje a noite, estaria preparada?”

Ele disse que devemos viver nossas vidas de forma que se morrermos de repente, não tenhamos nada a lamentar.

“Chan Khong você tem que aprender a viver livre como as nuvens ou a chuva.
Se você morrer hoje a noite, não deveria sentir nenhum medo ou lamento.
Você se tornará alguma coisa diferente, tão maravilhosa como é agora.
Mas se você lamentar perder sua forma atual, não estará liberada.
Ser liberada significa perceber que nada pode te obstruir, te impedir, mesmo enquanto cruza o oceano do nascimento e morte.”

Suas palavras me perfuraram e eu permaneci em silêncio por vários dias.

Não, eu não estava preparada para morrer.
Meu trabalho era minha vida.
Eu tinha encontrado meios de ajudar as crianças famintas, apesar das dificuldades, e estava feliz de novo.
Se eu morresse de repente, quem continuaria esse trabalho?
Eu contemplei muitas questões práticas como essa, enquanto seguia cada inspiração e cada expiração.
Eu não estava exatamente tentando achar a solução.
Eu sabia que a habilidade de achar uma estava em mim e quando eu estivesse calma o suficiente, uma resposta se revelaria por si.
Portanto eu continuei a respirar e sorrir, e alguns dias depois, eu realmente vi a solução.

Eu sabia que a única maneira que me permitiria morrer em paz seria se eu renascesse em outros que desejassem fazer o mesmo trabalho.
Então minha aspiração poderia continuar mesmo se esse corpo falecesse.

Eu pensei sobre os jovens que vinham para praticar plena atenção com Thay e decidi compartilhar com eles minhas experiências e desejos profundos sobre ajudar pessoas que sofrem.
Eu os ensinaria como escolher remédios, como embrulhar pacotes, como escrever cartas pessoais aos pobres, e como manter os ocidentais em contato com o sofrimento das pessoas no Vietnã.
Alguns jovens ficaram inspirados a começar seus próprios comitês, e hoje há trinta e oito comitês para crianças famintas.

Se eu morrer hoje a noite de acidente de carro ou de ataque cardíaco, estas trinta e oito reencarnações me permitirão morrer em paz.

Nguyen Anh Huong, que chegou aos Estados Unidos em 1981, ouviu atenta a tudo que eu disse e me perguntou como começar um projeto.
Como refugiada recém-chegada, ela conhecia melhor que eu as muitas famílias em grande sofrimento no Vietnã.
Eu a encorajei a preparar sua própria lista de famílias que precisavam de ajuda e a achar patrocinadores para elas.
Quando as crianças famintas escrevessem agradecendo, ela poderia traduzir as cartas e mandá-las aos patrocinadores.
Lentamente, Anh Huong foi capaz de ajudar centenas de famílias.

Bui Than Vu em Paris tem muitas famílias, Bui Ngoc Thuy em Sceaux na França tem oitenta e seis famílias, Annabel Laity em Plum Village está encarregada de quarenta famílias.
Adicionalmente, quase todas as irmãs vietnamitas da ordem Tiep Hien (Ordem Interser) na Suíça, Austrália, Canadá, Alemanha e França têm ajudado grupos de famílias famintas.
Se hoje a noite meu coração parar de bater, você verá meu trabalho em todas essas irmãs e irmãos.

Há aqueles que continuam meu trabalho pelas crianças famintas, outros que gostam de meu trabalho de ouvir o sofrimento das pessoas de forma que possam ser curadas.
Você pode ver meu sorriso no seu olhar e minha voz nas suas palavras.

Mas não verá minhas deficiências neles.
O samsara de minhas deficiências terminará no dia que esse corpo for transformado em cinzas e então se tornar flor de novo.
Onde quer que eu faça algo, eu vejo os olhos de meus pais e avós em mim.
Quando eu trabalhei com aldeões, sempre tinha a impressão que estava fazendo o trabalho conjuntamente com eles e também com as mãos amorosas daqueles amigos que economizaram um punhado de arroz ou poucos dólares para apoiar o trabalho.
Minhas mãos eram suas mãos.
Meu amor era o amor maravilhoso da rede de ancestrais, pais, parentes e amigos nascidos em mim.

O trabalho que eu tenho feito é o trabalho de todos.
Não é apenas meu trabalho.

Enquanto você lê essas linhas e sabe que, em uma remota área do Vietnã, crianças que são severamente mal nutridas estão recebendo recursos de Plum Village, você pode ver o ato de amor do trabalho coletivo de milhares de mãos e corações.
Todos nós, de fato, intersomos.

Eu continuarei em cada um e cada coisa que eu já toquei.

Não tenho nada a temer e nada a lamentar."

Irmã Chan Khong
(primeira ajudante de Thich Nhat Hanh, e que o acompanha há mais de 40 anos. Extraído do blog "Sangha Virtual") )

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

De quem é a culpa?




Um budista leigo estava andando pela margem de um rio quando viu um barqueiro empurrando uma barca em direção ao rio, para que ele pudesse atravessar alguns passageiros.
Aconteceu de um mestre Ch’an (o mesmo que Zen no Japão) passar por perto. O budista leigo aproximou-se do Mestre e perguntou: “Mestre, aquele barqueiro matou diversos caranguejos e camarões pequenos enquanto estava empurrando sua barca para o rio. A culpa é dos passageiros ou do barqueiro?”.
O Mestre retorquiu sem hesitar: “A culpa não é nem dos passageiros nem do barqueiro!”
O budista leigo não entendeu, por isso perguntou novamente: “Se a culpa não é de nenhum deles, então de quem é?”
O Mestre replicou incisivamente: “A culpa é sua!”.


Hsu Yun
(em "Histórias Chan")


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Nossa essência iluminada

"Qual é a razão para a miséria e dor que todo ser vivo enfrenta? Qual é causa para a ilusão do samsara? Não é nada a não ser falta de experiência com nossa essência iluminada.

Ignoramos o que está primordialmente presente dentro de nós: nossa natureza de Buda. No lugar disso, imersos em emoções confusas, perseguimos objetivos ilusórios que resultam, infinitamente, em mais experiências ilusórias. Isso é chamado “samsara”. Já fizemos isso por inúmeras vidas, vida após vida, renascimento seguido de morte.

A menos que você use agora essa oportunidade, enquanto você ainda é um ser humano, para realizar o que é inteiramente possível, vai continuar no futuro no mesmo caminho de ilusão.

Tulku Urgyen Rinpoche

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Tudo é Dharma

"O Dharma do Buda não é encontrado em livros. Se você quer realmente ver por si mesmo sobre o que Buda estava falando, não é preciso se preocupar com livros. Observe sua própria mente. Examine para ver como sentimentos vêm e vão, como pensamentos vêm e vão. Não se apegue a nada, apenas esteja consciente de qualquer coisa que há para ser vista.


Esse é o caminho para as verdades do Buda. Seja natural. Tudo que você faz na vida é uma chance de praticar. Tudo é Dharma. Ao executar suas tarefas, esteja consciente. Se está esvaziando uma escarradeira ou limpando um banheiro não veja isso que está fazendo como um favor para alguém. Há Dharma em esvaziar escarradeiras.

Não encare que você está praticando apenas quando está sentado de pernas cruzadas. Alguns de vocês têm reclamado que não há tempo suficiente para meditar. Há tempo suficiente para respirar? Esta é sua meditação: estado desperto, naturalidade em qualquer coisa que faça."


Ajahn Chah
(em “Living Dharma“)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Cada momento é absoluto

"Por “atenção” nós podemos usar a expressão “estado desperto”. Atenção ou estado desperto é o segredo da vida, ou o coração da prática. … Cada momento da vida é absoluto em si mesmo. É tudo que existe. Não há nada além do presente momento; não há passado, não há futuro; não há nada além disto. Então quando não prestamos atenção a “isto”, perdemos todo o quadro. E o conteúdo “disto” pode ser qualquer coisa.
“Isto” pode ser ajustar nossas almofadas de meditação, cortar uma cebola, visitar alguém que não gostaríamos de visitar. Não importa o conteúdo do momento, cada momento é absoluto. É tudo que existe e tudo que existirá para sempre. Se pudéssemos prestar atenção total, nunca nos irritaríamos. Se estamos irritados, é axiomático que não estamos prestando atenção. Se perdemos não apenas um momento, mas um momento depois do outro, então estamos com problemas."

Charlotte Joko Beck
(em “Nada Especial, Vivendo Zen”)

A Felicidade está disponível

"Apenas nossa busca pela felicidade
nos impede de vê-la.
É como um arco-íris vívido que você persegue sem nunca pegar,
ou um cão correndo atrás do próprio rabo.

Embora paz e felicidade não existam
como uma coisa ou lugar de verdade,
estão sempre disponíveis
e te acompanham a cada instante."

Gendun Rinpoche

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A claridade está sempre lá


"Em vez de lutar contra a força da confusão, podemos nos encontrar com ela e relaxar. Quando fazemos isso, gradualmente descobrimos que a claridade está sempre lá. No meio do pior cenário da pior pessoa do mundo, no meio de todo o pesado diálogo com nós mesmos, o espaço aberto está sempre lá."

Pema Chodron
(em "Quando Tudo se Desfaz")

domingo, 19 de agosto de 2012

A Paz que estamos buscando


"A paz que estamos buscando não é a paz que desmorona assim que há dificuldade ou caos. Se estamos buscando paz interior, paz global ou uma combinação de ambas, o modo para vivenciar isso é construir a partir da fundação da abertura incondicional para tudo o que surgir.
A paz não é uma experiência livre de desafios, livre de aspereza e maciez; é uma experiência que é expansiva o suficiente para incluir tudo que surgir sem nos sentirmos ameaçados."

Pema Chodron

sábado, 18 de agosto de 2012

Verdadeiramente em silêncio


"Silêncio não significa não falar e não fazer coisas; significa que você não está perturbado por dentro. Se estiver verdadeiramente em silêncio, então não importa em que situação se encontre, você pode desfrutar do silêncio."

Thich Nhat Hanh

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A renúncia verdadeira


"Se alguém refletir genuinamente sobre renúncia, não se trata de desistir de coisas externas como dinheiro, deixar a casa ou a família. Isso é fácil. A renúncia verdadeira é abrir mão de nossos queridos pensamentos, de todo nosso deleite nas memórias, esperanças e devaneios, nossa tagarelice mental. Renunciar a isso e ficar nu no presente, isso é renúncia.

O fato é que dizemos que queremos a iluminação, mas na verdade não queremos. Apenas porções de nós quer a iluminação: o ego que pensa como isso seria bom, confortável e prazeiroso. Mas realmente abandonar tudo e ir atrás? Poderíamos fazer isso em um instante, mas não fazemos.

E a razão é que somos muito preguiçosos. Ficamos paralisados pelo medo e letargia — a grande inércia da mente. A prática está lá. Qualquer pessoa no caminho budista certamente conhece essas coisas. Então, como é que não estamos iluminados? Não temos ninguém para culpar a não ser nós mesmos.

É por isso que ficamos no Samsara, porque sempre achamos desculpas. Em vez disso, devemos nos despertar. Todo caminho budista é sobre despertar. Ainda assim, o desejo de continuar dormindo é tão forte. Independente de quanto dizemos que iremos despertar para ajudar todos os seres sencientes, na verdade nós não queremos isso. Gostamos de sonhar."

Jetsunma Tenzin Palmo
(em "Cave in The Snow")

Minhas ações estão corretas?

"Milarepa disse: “Minha religião é não ter nada do que se arrepender quando morrer”. Mas a maioria das pessoas não dá nenhuma importância a essa maneira de pensar. Fingimos ser muito calmos e controlados, cheios de palavras doces, para que as pessoas comuns — que não conhecem nossos pensamentos — digam: “Esse é um verdadeiro bodisatva”. Mas é apenas nosso comportamento externo que elas veem.

A coisa importante a fazer é não realizar qualquer coisa que possamos nos arrepender depois. Portanto, precisamos nos examinar honestamente.

Infelizmente, nosso apego ao ego é tão grosseiro que, mesmo se tivermos sim alguma pequena qualidade, pensamos que somos maravilhosos. Por outro lado, se temos algum grande defeito, nem mesmo percebemos. Há um ditado que diz: “No pico do orgulho, a água das boas qualidades não permanece”.

Então, devemos ser muito meticulosos. Se, após examinarnos completamente a nós mesmos, pudermos colocar as mãos no coração e honestamente pensar: “Minhas ações estão todas corretas”, então isso é um sinal de que estamos ganhando alguma experiência no treinamento da mente.

Devemos então ficar contentes que nossa prática tem ido bem e nos determinar a fazer ainda melhor no futuro, assim como fizeram os bodisatvas de outros tempos. Com todos os meios devemos gerar antídotos cada vez mais, agindo de modo a estar em paz com nós mesmos."

Dilgo Khyentse Rinpoche

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Artimanhas do ego (2)

"Mas seja qual for a força com que o ego tenta sabotar seu caminho espiritual, se você prossegue nele e trabalha profundamente com a prática da meditação, começará a perceber como tem sido enganado pelas promessas do ego: falsas esperanças e falsos medos. Devagar você começa a compreender que tanto a esperança quanto o medo são inimigos da sua paz de espírito; as esperanças o decepcionam, deixando-o vazio e desapontado, e os temores o paralisam na cela estreita da sua falsa identidade. Você começa a ver também como foi poderosa a influência do ego sobre sua mente, e no espaço de liberdade aberto pela meditação – em que você está momentaneamente livre da avidez – você vislumbra a estimulante amplitude da sua verdadeira natureza. Entende que o seu ego, como um artista louco e trapaceiro, enganou você durante anos com esquemas, planos e promessas que nunca foram reais e só o levaram à falência interior. Quando você percebe isso na equanimidade da meditação, sem qualquer consolação ou desejo de esconder o que descobriu, todos os planos e esquemas se revelam vazios e começam a desmoronar.


Esse esquema não é um processo puramente destrutivo, porque junto com uma compreensão extremamente precisa e às vezes dolorosa da fraudulência e virtual criminalidade do seu ego, e do de todos os demais, cresce uma sensação de expansão interna, um conhecimento direto daquela “ausência de ego” e interdependência de todas as coisas, dessa viva e generosa disposição de espírito que é a marca que autentica a liberdade.

Sogyal Rinpoche
(em "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer")

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Artimanhas do ego (1)

"O ego é capaz de converter tudo para seu uso próprio, inclusive a espiritualidade. Se aprendemos, por exemplo, uma técnica de meditação dentro de uma prática espiritual particularmente benéfica, o ego se põe, primeiro, a tratá-la como um objeto de fascinação e, depois, a examiná-la. O ego é sólido apenas na aparência e não pode, de fato, absorver coisa alguma; só é capaz de arremedar. Em tais circunstâncias, ele procura examinar e imitar a prática de meditação e o modo de vida meditativo.

Depois de aprendermos todos os truques e todas as respostas do jogo espiritual, tentamos imitar automaticamente a espiritualidade, já que o envolvimento verdadeiro exigiria uma completa eliminação do ego, e a última coisa que desejamos fazer é renunciar completamente a ele. Entretanto, não podemos experimentar aquilo que estamos tentando imitar; podemos apenas encontrar alguma área dentro dos limites do ego que pareça ser a mesma coisa." 

Chogyam Trungpa
(em "Além do Materialismo Espiritual)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sementes da iluminação

"Todo ser vivo possui o coração da iluminação. As sementes da iluminação existem dentro de cada um. Os seres vivos não precisam buscar a iluminação fora de si mesmos, pois toda a sabedoria e poder do universo já estão presentes dentro deles. Esta foi a grande descoberta do Buda e a razão para todos se regozijarem."

Thich Nhat Hanh
(em "Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do Buda")