quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Bom e ruim: ilusões




Pergunta: Há mestres que comem carne?

Compreenda a si mesmo, isso é o mais importante. Seu corpo não é você. Você acredita ser esse corpo, mas não é. Logo, o que é bom e o que é ruim? Essas questões não tem fundamento, acredite. Tire-as da cabeça. “Bom” e “ruim” são preocupações da mente condicionada, apenas isso.

Certo dia meu mestre pediu a seus discípulos, “Tragam-me algo que seja ruim”. Eles não conseguiram encontrar nada que fosse ruim, até que finalmente alguém trouxe um pouco de esterco. Mas sem esterco não há comida, os fertilizantes são necessários! Portanto, nada no mundo é ruim e nada é bom. O eu que julga o que é bom e o que é ruim e não aceita serenamente o que acontece, esse sim é ruim.



Sri Ranjit Maharaj
(em “Illusion vs. Reality”)



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Uma transformação radical




Algumas pessoas esqueceram sua divindade tão completamente que não têm realmente nenhum interesse. Eu mesmo, numa época, não estava interessado em despertar, não me interessava por esse tipo de coisa. Eu tinha outros interesses, mas não isso. De onde veio então esse interesse? Surgiu no meu coração e de alguma forma chegou ao lugar em que se encontra agora, quando há paz em mim, em meu coração, paz em minha mente. Não a paz vinda de algo, nem sequer por alguma razão. É simplesmente Paz, Alegria, Silêncio e Amplitude.

Como isso surgiu em alguém tão comum como eu? Por isso, vejo que é possível para todos, pois não sou mais especial que ninguém. A pessoa pode parecer completamente desinteressada e até mentalmente obscura, e no entanto, sua vida pode mudar. Ela pode chegar a uma compreensão total, ou a um completo despertar. Este é o verdadeiro Milagre.

Uma transformação orgânica, uma mudança radical, sem que se consiga explicar a causa. Não significa porém que algumas pessoas tenham sorte e outras não. Aquelas que sentem que é chegado o momento de descobrir, começam a sentir-se diferentes, sentem-se atraídas, começam a procurar por livros espirituais, não se interessam mais por livros românticos. Querem saber sobre o Buda. Se você lhes der um livro de viagem, elas não querem, o que desejam é saber o que Buda disse sobre essas coisas.

O que as leva a pensar desta maneira? Não sabemos. Simplesmente esta atração floresce dentro de seus corações, e então começam a pensar diferente. No sonho que é a vida precisa haver esses opostos, como esquecer e lembrar. Se nunca sentíssemos ódio ou tristeza, não saberíamos o que é o Amor ou a Felicidade. De certa forma, aprendemos através dos opostos. Logo, se estivéssemos, como você diz, ‘todos despertos e divinos’, não saberíamos o que é Despertar. Não saberíamos o que é a Divindade, não saberíamos absolutamente nada. Na verdade, no estado original não sabemos absolutamente nada, porque não há nada mais que saber. Quando você é completo em sua harmonia natural, não sabe absolutamente nada.

O que há para saber? Qual é a razão para saber algo, você está em completa Alegria! Quando você está feliz, você não quer saber nada, você simplesmente está feliz, não é? Mas quando está triste você quer saber muitas coisas.  Quando estamos sofrendo e com dor então surge essa pergunta: por que devemos sofrer dessa maneira? Não perguntamos isso quando estamos nos divertindo. Estamos suficientemente alegres para apenas continuar nos divertindo. Mas quando sofremos, quando sentimos dor ou perda ou temos uma profunda ferida emocional, aí surgem essas perguntas, ‘o que é essa vida’?, ‘por que estamos aqui?'.


Mooji

(entrevista em Buenos Aires – 2009)



terça-feira, 16 de agosto de 2016

O Zen não é difícil. Nem fácil.





O Zen não é difícil. Se você acha o Zen difícil, significa que está analisando a si próprio, analisando sua situação, sua condição, suas opiniões. Por isso você acha o Zen difícil. Mas se você mantém a mente que vem antes dos pensamentos, o Zen não é difícil. E também não é fácil. Ele é o que é. Não o torne difícil, não o torne fácil. Apenas pratique.


Seung Sahn
(em “Droping Ashes on the Buddha”)



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Uma ilha de ouro puro




Do ponto de vista da verdade absoluta, nem a felicidade e nem o sofrimento têm existência real. Ambos pertencem à verdade relativa, percebida pela mente que permanece presa pelos grilhões da confusão. Aquele que compreende a verdadeira natureza das coisas é como um navegador que aporta em uma ilha feita de ouro puro: mesmo que procure seixos comuns, não irá encontrá-los. Dilgo Khyentse Rinpoche nos explica:

“Como as nuvens que se formam no céu, ficam algum tempo e depois se dissolvem no vazio do espaço, os pensamentos ilusórios aparecem, duram um momento e depois desaparecem na vacuidade da mente. De fato, nada realmente aconteceu.”



Matthieu Ricard
(em “Felicidade – A Prática do Bem-Estar)


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Um homem feliz






Posso dizer, sinceramente e sem ostentação, que sou um homem feliz, assim como digo que sei ler ou que tenho uma boa saúde. Se eu tivesse sido feliz sempre e continuamente, desde o momento em que, quando era pequeno, caí dentro de uma poção mágica, essa afirmação não teria nenhum interesse. Mas não foi sempre assim. Como criança e adolescente, estudei o melhor que pude, amei a natureza, toquei música, esquiei, velejei, observei os pássaros, aprendi a fotografar, amei a minha família e os meus amigos. Mas nunca me ocorreu dizer que era feliz. A felicidade não fazia parte do meu vocabulário. Eu tinha consciência do potencial que pensava estar presente dentro de mim, como um tesouro oculto, e o imaginava também nos outros. Mas a natureza desse potencial era vaga, e eu não tinha ideia de como realizá-lo. O florescimento que sinto agora, a cada momento de minha existência, foi construído ao longo do tempo, e em condições propícias à compreensão das causas da felicidade e do sofrimento.

Em meu caso, a boa sorte de encontrar-me com pessoas notáveis, que eram ao mesmo tempo sábias e compassivas, foi decisiva, porque o poder do exemplo diz mais que qualquer discurso. Elas me mostraram o que podemos realizar e provaram-me que é possível tornar-se livre e feliz, de maneira duradoura, desde que se dê atenção a isso. Quando estou entre amigos, compartilho minha vida com eles com alegria. Quando estou só, em meu retiro ou em outro lugar, cada instante que passa é um deleite. Quando empreendo um projeto na vida ativa, regozijo-me se ele tem êxito e não vejo razão para queixar-me se ele não tem, já que dou a ele o meu melhor. Tive a sorte, até o dia de hoje, de ter o que comer e um teto sobre a minha cabeça. Considero que minhas posses são ferramentas, e não considero nenhuma delas indispensável.  Sem um comportador portátil eu pararia de escrever, e sem minha câmera deixaria de fotografar, mas isso de modo algum prejudicaria a qualidade de cada momento da minha vida. Para mim, o essencial foi ter encontrado os meus mestres espirituais e ter recebido deles os ensinamentos. Isso meu deu mais do que o suficiente para meditar até o fim dos meus dias!


Matthieu Ricard
(em “Felicidade – A Prática do Bem-Estar”)    

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A primavera vem, a grama cresce espontaneamente.





“O estudante disse, ‘Como eu posso compreender o Absoluto?’”

Seung Sahn respondeu, ‘Você precisa compreender você.’”

‘Como posso compreender a mim?’

Seung Sahn segurou sua vara Zen e perguntou, ‘Vê isso?’

Então, subitamente ele bateu com a vara na mesa e perguntou, ‘Você ouviu? Essa vara, esse som, sua mente: são o mesmo ou diferentes?

O estudante respondeu, ‘O mesmo.’

Seung Sahn disse, ‘Se você responder que são o mesmo eu o açoitarei trinta vezes. Se responder que são diferentes, eu também o açoitarei trinta vezes. Por quê?’

O estudante ficou calado.

Seung Sahn gritou, ‘KATZ!!!’, e depois disse,

‘A primavera vem, a grama cresce espontaneamente.’



Seung Sahn
(em “Droping Ashes on the Buddha”)



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Esforço





Estamos numa bifurcação que pode levar para cima ou para baixo. Descer não requer esforço de nossa parte: é fácil, porque a tendência natural é continuar com o velho padrão de emoções negativas. A prática do Dharma, por outro lado, exige esforço e precisa ser cultivada. É como tentar empurrar uma enorme pedra montanha acima. Ela não vai chegar ao topo sozinha, precisa que alguém empurre. Mas, se a pedra for largada, rola montanha abaixo por si só, sem ajuda de ninguém. Do mesmo modo, não precisamos de muito esforço para cometer ações negativas; elas ocorrem naturalmente, porque são nossa tendência natural. O que exige esforço é praticar a virtude e evitar a negatividade.

A existência samsárica não exige esforço de nossa parte para se perpetuar. Ela segue automaticamente. Falando sem rodeios, se você deseja ser feliz, deve se dedicar à prática do Dharma, mas, se está satisfeito com a dor e o sofrimento, não precisa se dar ao trabalho.


Tulku Urgyen Rinpoche
(em “Repetindo as Palavras de Buda”)


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Uma mesma substância





Numa fábrica, diferentes biscoitos são assados em forma de animais, carros, pessoas, aviões. Possuem diferentes nomes e formatos, mas são todos feitos da mesma massa e possuem o mesmo sabor.

Da mesma maneira, tudo no universo – o sol, a lua, as estrelas, montanhas, rios, pessoas e tudo o mais – possui diferentes nomes e formas, mas são todos feitos da mesma substância. O universo é organizado em pares de opostos: claro e escuro, homem e mulher, som e silêncio, bom e mau. Mas todos esses opostos são mútuos, possuem nomes e formas diferentes, mas sua substância é a mesma.

A substância dessa vara Zen e sua substância é a mesma. Você é essa vara: essa vara é você.


Seung Sahn
(em “Droping Ashes on the Buddha”)


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Agindo poderosamente




Quando você se torna completamente consciente de que é a sua Essência quem faz tudo, naturalmente passa a entregar a ela tudo que surgir.

Mesmo que pareça que você não esta fazendo nada a respeito, sua Essência está agindo muito poderosamente.   


Daehaeng Sunim
(em “Touching the Earth: The power of our inner light to transform the world”)



sábado, 6 de agosto de 2016

Sem discriminação




Quando preparardes a comida, não olheis com olhos comuns e não penseis com mente comum. Apanhai uma folha de relva e construí uma terra do rei do tesouro; entrai numa partícula de pó e girai a grande roda do darma. Não desperteis uma mente desdenhosa quando preparardes um caldo de ervas silvestres; não desperteis uma mente alegre ao preparardes uma refinada sopa cremosa. Onde não há discriminação, como pode haver aversão? Por conseguinte, não sejais descuidados nem mesmo quando trabalhardes com material pobre, e mantei vossos esforços mesmo quando tiverdes excelente material. Não mudeis jamais a vossa atitude de acordo com o material. Se assim o fizerdes, será como se alterásseis vossa verdade ao falar com pessoas diferentes; não sereis, então, um praticante do caminho.


Dogen Zenji
(em “A Lua Numa Gota de Orvalho – Escritos do Mestre Dogen”)






sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A iluminação não é uma conquista





Os estudantes deveriam saber que o caminho de buda* encontra-se fora do pensamento, da análise, da profecia, da introspecção, do conhecimento e da explicação sensata. Se o caminho de buda estivesse nessas atividades, por que já não teríeis realizado o caminho de buda até agora, uma vez que desde o nascimento perpetuamente estivestes em meio a essas atividades?

Os estudantes do caminho não deveriam empregar o pensamento, a análise ou qualquer uma dessas coisas. Embora o pensamento e outras atividades sempre vos assediem, se os examinardes enquanto prosseguis, vossa clareza será como um espelho.


Dogen Zenji
(em “A Lua Numa Gota de Orvalho – Escritos do Mestre Dogen”)


*Caminho de buda: Essência, Realização, Iluminação, etc.






quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Sabedoria é saber que o eu não existe




Sabedoria é saber que o eu não existe. Sabedoria é saber que a matéria e o corpo físico são meras imagens de um sonho, são como gotas d’água agitadas pelas marés e pelos ventos. Ignorância nada mais é que insistir na existência do eu individual e esquecer que a matéria e o corpo físico desaparecerão.

Abandone o eu e milhões de sofrimentos e dúvidas desaparecerão.


Daehaeng Sunim
(em “No River to Cross – Trusting The Enlightenment That’s Always Right Here”)




quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Como se libertar do medo?




Uma das perguntas que mais me fazem nos ensinamentos em grupo e nas entrevistas particulares é: “Como me livrar do apegos? Como me libertar das esperanças e dos medos?”

A resposta é simples: “Não tente se livrar”.

Por quê?

Porque quando tentamos nos livrar de algo, na realidade estamos reforçando a esperança e o medo. Se encaramos qualquer situação, sentimento, sensação, ou qualquer outra experiência como inimigo, apenas o tornamos mais forte, pois estamos resistindo e sucumbindo por causa deles. O caminho proposto por Buda começa por simplesmente observar o que quer que estejamos pensando ou sentindo: “Estou com raiva. Estou com ciúmes. Estou cansado. Estou com medo.”

À medida que observamos, pouco a pouco percebemos que os pensamentos e os sentimentos não são fixos nem sólidos como parecem ser. A impermanência tem suas vantagens. Tudo muda – até mesmo nossas esperanças e medos.


Yongey Mingyur Rinpoche
(em “Joyful Wisdom”)


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Participar do reino de Buda




Agarrar-se ideia de que você e os outros são seres diferentes, a ponto de não conseguir nem mesmo imaginar que tudo é um, é o principal obstáculo no caminho para o Buda. A princípio valorizar o eu pode parecer útil, mas essa é na verdade a origem de todos os problemas. Agarrar-se a ideia de eu nos priva de participar do reino de Buda e nos impede de experimentar os incríveis benefícios desse reino. Até que conheçamos completamente a realidade da não-dualidade, não haverá paz para nós. Por isso, como praticante, você não deve encarar nada dualisticamente mas sim entregar tudo que surgir à sua Essência de maneira profunda e sincera.



Daehaeng Sunim
(em “No River to Cross – Trusting The Enlightenment That’s Always Right Here”)


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Lidar com tudo





Para mim um ponto fundamental é: aqueles que querem algo mais da vida não devem se deixar arrastar pelas coisas que acontecem a elas. Em vez disso, devem aceitar e absorver por inteiro tudo que enfrentam. Compreender intelectualmente o que estou dizendo não é a verdadeira compreensão. Em vez disso, tenha uma fé firme em sua Essência e entregue absolutamente tudo a ela.

Não importa o que você enfrente, sua prática deve ser sempre a de entregar tudo à Essência, pois o que você confiar a ela será modificado e trazido de volta ao mundo de uma outra forma. Sua compreensão e sua prática devem refletir-se em ações. Só assim você será capaz de lidar com todos os problemas de sua família, da Terra e do Universo.


Daehaeng Sunim
(em “Touching the Earth: The power of our inner light to transform the world”)