quarta-feira, 19 de março de 2014

Morrer com o coração em paz


Se algum dia você receber a notícia de que eu morri por causa de atos cruéis de alguém, saiba que eu morri com o meu coração em paz. Saiba que em meus últimos momentos eu não sucumbi à raiva. Nunca devemos odiar um outro ser. Se você puder dar origem a essa consciência, será capaz de sorrir. Você terá um refúgio que ninguém poderá te tirar. Ninguém será capaz de perturbar a sua fé, porque ela não dependerá de qualquer coisa no mundo fenomenal. Fé e amor são um e podem apenas surgir quando você penetrar profundamente a natureza vazia do mundo fenomenal, quando puder ver que você está em tudo e tudo está em você.

Thich Nhat Hanh
(em "Fragrant Palm Leaves")

terça-feira, 18 de março de 2014

A compaixão de Buda

Estou certo de que o Buda sente compaixão por nós, não porque sofremos, mas porque não vemos o caminho, o que é a causa do nosso sofrimento.

Desde que eu era jovem, tento entender a natureza da compaixão. Mas a pouca compaixão que aprendi não foi proveniente de investigação intelectual, mas da minha experiência real do sofrimento. Eu não tenho orgulho do meu sofrimento mais do que uma pessoa que confunde uma corda com uma cobra é orgulhosa de seu medo. Meu sofrimento foi uma mera corda, uma mera gota de vazio tão insignificante que deve se dissolver como a névoa ao amanhecer. Mas não foi dissolvido e eu sou quase incapaz de suportá-lo. Será que o Buda não vê o meu sofrimento? Como ele pode sorrir?

Somos nós que o esculpimos sentado e sorrindo, e fazemos isso por uma razão. Quando você fica acordado a noite toda se preocupando com o seu ente querido, você está tão ligado ao mundo fenomenal que pode não ser capaz de ver a verdadeira face da realidade. Um médico que entende com precisão a condição de seu paciente não se senta e fica obcecado em mais de mil explicações ou ansiedades diferentes como a família do paciente. O médico sabe que o paciente vai se recuperar, e assim ele pode sorrir, mesmo quando o paciente ainda está doente. Seu sorriso não é cruel, é simplesmente o sorriso de alguém que capta a situação e não se envolve em preocupação desnecessária.

Thich Nhat Hanh
(em "Fragrant Palm Leaves " - Diário de Thich Nhat Hanh)

segunda-feira, 17 de março de 2014

Libertando-se dos conceitos

Os obstáculos para a Perfeita Compreensão são nossas idéias e conceitos sobre nascimento e morte, impuro e imaculado, ascenção e queda, acima e abaixo, dentro e fora, Buda e Mara, e assim por diante. Uma vez que se veja com os olhos da interdependência, esses obstáculos são removidos de nossa mente e assim superamos o medo, libertando-nos para sempre da ilusão e realizando o perfeito Nirvana.

Quando a onda reconhece que ela é água, e que não há nada senão água, percebe que nascimento e morte não podem causar qualquer mal. Ela terá transcendido todos os tipos de medo, pois o Nirvana é o estado de destemor.
 
Thich Nhat Hanh
(em "O Coração da Compreensão")

sexta-feira, 14 de março de 2014

O real significado do preceito "Não matar"

Então, o que é a prática?

A prática é manifestar o objeto de sua atividade - zazen, cozinhar, praticar esportes, ou qualquer outra coisa que esteja fazendo - como um ser que existe no tempo eterno. Se você faz alguma coisa sinceramente, de todo o coração, todos os seres sensíveis vem à vida. Então você olha para uma mesa e vê a mesa como um belo ser que existe com você agora, nesse exato momento. Isso é unidade.
 
Você pode não se importar com a vida da mesa. Você pode quebrá-la e usá-la como lenha. Mas ver a mesa somente sob seu estreito ponto de vista egoísta é matar a vida da mesa.
 
O preceito budista não matar não significa somente não eliminar pessoas ou animais. Se você entender profundamente o significado de não matar, saberá que não significa tratá-la de acordo com sua visão egoísta, que separa você da mesa. Significa ver a mesa como ela realmente é, uma manifestação do tempo eterno, onde não há separação entre o sujeito e o objeto. Isso é animar a vida da mesa, assim como um Buda.
 
Dainin Katagiri
(em "Each Moment is the Universe")

quinta-feira, 13 de março de 2014

A vida vivida como o vento

Quem é o verdadeiro poeta? O orvalho doce que um verdadeiro poeta bebe todos os dias pode envenenar outros. Para alguém que tem visto dentro da natureza das coisas, o conhecimento dá origem à ação. Para aqueles que têm verdadeiramente visto, não há filosofia de ação necessária. Não há conhecimento, realização, ou objeto de realização. A vida é vivida assim como o vento sopra, as nuvens flutuam a deriva, e as flores brotam. Quando você sabe como voar você não precisa de um mapa de rua. Sua linguagem é a linguagem das nuvens, vento e flores. Se te fazem uma pergunta filosófica, você pode responder com um poema ou pergunta: "Você já tomou o seu café da manhã? Então por favor, lave sua tigela". Ou aponta para a floresta da montanha.

Se você não acredita em mim, olhe e veja
O outono chegou.
Folhas dispersas de muitas cores inundam a floresta da montanha!

Thich Nhat Hanh
(em "Fragrant Palm Leaves” – Diário de Thich Nhat Hanh)

quarta-feira, 12 de março de 2014

Se não estivermos atentos

Em 15 minutos, será meia-noite. O Natal está quase aqui. Eu estou acordado escrevendo nessa hora sagrada em meu diário. Meus pensamentos fluem e é maravilhoso derramá-los no papel. Eu escrevi sobre a experiência espiritual que me revelou a forma de olhar e ouvir com toda a atenção. Tais momentos só podem vir uma vez na vida. Eles aparecem como embaixadores da verdade, mensageiros da realidade. Se não estivermos atentos, eles podem passar despercebidos. O segredo de mestres zen está em descobrir o caminho de retorno desses momentos, e saber como preparar o caminho para tais momentos surgirem. Os mestres sabem como usar a luz ofuscante daqueles momentos para iluminar o caminho de volta, a viagem que começa no nada e não tem destino.

Thich Nhat Hanh
(em "Fragrant Palm Leaves” – Diário de Thich Nhat Hanh)

terça-feira, 11 de março de 2014

O Verdadeiro Sofrimento



Quando eu era um jovem monge me foi ensinado que os maiores sofrimentos eram nascimento, doença, velhice, morte, sonhos não realizados, a separação de seus entes queridos, e contato com aqueles que nos desprezam. Mas o verdadeiro sofrimento da humanidade reside na forma como olhamos para a realidade. Olhe e você vai ver que o nascimento, a velhice, a doença, a morte, as esperanças não cumpridas, a separação de seus entes queridos e contato com aqueles que nos desprezam são também maravilhas em si mesmos. Eles são todos aspectos preciosos da existência. Sem eles, a existência não seria possível. O mais importante é saber como navegar as ondas da impermanência, sorrindo como quem sabe que nunca nasceu e nunca vai morrer.

Thich Nhat Hanh
(em "Fragrant Palm Leaves” – Diário de Thich Nhat Hanh)

segunda-feira, 10 de março de 2014

A iluminação já está aqui


Basta colocar o pé na Alemanha para ver que os jovens alemães de hoje sofrem o carma que herdaram do passado de seu país. Temos o carma de nosso país, de nossa família, de nossa onda individual, de nosso planeta...
 
A unidade a que pertencemos tem tudo. Nós é que nos perdemos nesta pequenas e limitadas manifestações individuais. Nada há para ser perdido. Nem para ser obtido. A iluminação é libertação desse eu aprisionado, limitado, sem conhecimento. Um universo cessa quando seus carmas se esgotam, quando a energia se equilibra sem distinções. Querer guardar algo, obter algo para um eu individual é a cegueira básica que impede a iluminação. 
 
A iluminação já está aqui, agora, só não a vemos porque a ilusão do eu deseja obter sabedoria, poder, vitórias, conhecimentos, mergulhando-nos em um sonho sem fim. É por isso que despertar desse pesadelo é que faz de um homem um Buda.
 
Monge Genshô
(em "O Pico da Montanha é onde estão os meus pés")
 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Sobre o Budismo

Se você está interessado em “encontrar o Buda” e seguir o caminho espiritual que ele descreveu, há certas coisas que precisa saber antes de começar. Primeiro, o budismo é essencialmente  um estudo da mente e um sistema de treinamento da mente. É espiritual em sua natureza, porém não religioso. Sua meta é o autoconhecimento, não a salvação; a liberdade, não o paraíso. Ele repousa sobre a razão e a análise, a contemplação e a meditação, a fim de transformar o conhecimento sobre algo em sabedoria que ultrapassa o conhecimento. Porém, se você não tiver curiosidade e fizer questionamentos, não há caminho, não há jornada a ser feita, ainda que você siga uma das tradições. 

Dzogchen Penlop
 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Ser o próprio mestre em qualquer situação

Praticar significa manifestar o tempo que é eterno diretamente no centro de seu ser. Ser o próprio mestre em qualquer situação na qual se encontre. Quando você pratica zazen com a natureza de Buda, esse é o zazen real: o tempo que é eterno está conectado com todos os seres, e sua prática não manifesta somente o seu eu pequeno e limitado; ela manifesta o seu eu maior, o self que é o próprio universo. 
 
Você se torna um no zazen e, simultaneamente, seu zazen começa a influenciar os outros, pois sua vida está ligada à vida de todos os outros seres. É por isso que não podemos cuidar somente de nossas vidas e ignorar a vida dos outros.
 
Dainin Katagiri
(em "Each Moment is the Universe")
 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Meditação é uma maneira de viver

Tudo é meditação na prática budista, seja quando comemos, bebemos, vestimo-nos, assistimos, escutamos, cheiramos, saboreamos, tocamos, sentimos. O que quer que façamos, deve ser feito com Plena Atenção, dinamicamente, integralmente, profundamente e isso se torna meditação, significativa e com propósito. Não é refletindo, mas vivenciando momento a momento, vivendo cada situação sem apego, sem críticas, sem julgamentos, sem avaliações, sem comparações, conscientemente sem escolhas. Meditação não é apenas sentar-se, é uma maneira de viver. Deve ser integrada totalmente em sua vida. Na verdade, é educar-se na forma correta de ver, ouvir, cheirar, comer, beber, caminhar com consciência plena. Desenvolver a mente alerta é o fator mais importante no processo de despertar.

Anagarika Munindra

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A Ilusão e a Vida

É possível viver na vida sabendo que é ilusão e ainda assim usufruir da vida? Sim e muito mais porque a alegria da vida deixa de estar cheia dos sofrimentos inerentes aos apegos. Não é a vida em si que produz sofrimento. Quem produz sofrimento é nosso apego à permanência na vida, porque desejamos estabilidade, porque desejamos nos agarrar às coisas da vida. Elas são muito fortes. Nossos filhos, nossos amores, nossa casa, colocamos apego nessas coisas e elas são impermanentes, então obrigatoriamente teremos sofrimento, mas nós podemos ter profundo amor sem apego, sabendo que é transitório, impermanente e ilusório. Que é um sonho maravilhoso que estamos vivendo, mas que não tem solidez, então é perfeitamente possível usufruir e viver, e ao mesmo tempo ter uma mente livre. Ter conquistado a liberdade. Não vai haver apego, ódio, ilusão. Não vão haver as três coisas que produzem o sofrimento: o apegar-se, o ter aversão e a ilusão.

 Monge Genshô
(em seu blog "O Pico da Montanha é onde estão os meus pés")
 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Medo das mudanças

O dinâmico, energético e natural fluxo do universo não é aceitável para a mente convencional. Nossos preconceitos e manias são padrões que surgem de nosso medo das mudanças do mundo. Por enganosamente tomarmos o impermanente como sendo permanente, nós sofremos.
 
Pema Chodron
 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O sofrimento surge e se vai

É importante ter uma compreensão profunda do sofrimento humano, pois a dor e o sofrimento jamais deixarão de surgir. Quanto mais você se aprofunda em sua prática, mais perceberá isso. Quanto mais tentar viver em paz e harmonia, mais perceberá o quão egoísta você é. Quanto mais fundo for, mais verá a vibração do sofrimento erguendo-se das profundezas de seu coração. Mesmo que você atinja a iluminação, sofrimento e dor estarão em sua vida.
 
Mas tudo bem. Como tudo o mais que existe no mundo fenomenal, seu sofrimento é um ser que surge da natureza original da existência, e a cada momento retorna à sua fonte. Portanto, quando vir o sofrimento, tudo o que tem a fazer é aceitá-lo e oferecer seu corpo e sua mente à existência última. E então seu sofrimento retornará ao vazio, e haverá liberdade.
 
Dainin Katagiri
(em "Each Moment is the Universe") 
 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Apenas ouça o som do sino

A cada momento você cria pensamentos sobre tudo, e então se torna apegado a esses pensamentos. Mas apego significa sofrimento, pois não há nada que seja inerentemente permanente ao qual você possa apegar-se.
 
Apenas ouça o som do sino que toca. No momento seguinte, deixe que ele se vá. Isso é tudo.
 
Dainin Katagiri
(em "Each Moment is the Universe")