sábado, 1 de dezembro de 2012

Imagine


Não estar nas mãos de ninguém

Não estar nas mãos de ninguém, ser o homem de seu coração, de seus princípios, de seus sentimentos: é o que de mais raro tenho visto.

Chamfort,
(em " Chamfort - Máximas e Pensamentos")


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O Valioso Tempo dos Maduros - Mario de Andrade


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.

‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mario de Andrade


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A vida tem sentidos infinitamente múltiplos


Schopenhauer e os inúmeros escritores da Europa moderna que, abertamente ou não, adotaram a filosofia niilista, de Cioran a Berhard e de Houellebecq a Jelinek, todos eles viveram, quando jovens, numa ficção forte e coercitiva (religiosa ou política). Tendo entendido mais tarde que Paraíso, Inferno e Futuro radioso eram bobagens, que o Sentido da existência humana não era determinado nem por Deus, nem pela História, eles concluíram que ela não tinha Sentido algum, que era apenas tragédia, horror e derrisão, e se puseram a bradar contra a própria vida.
Isso é absurdo.
A vida tem Sentidos infinitamente múltiplos e variados: todos aqueles que lhe conferirmos.
A nossa condição é a ficção, o que não é uma razão para desprezá-la.
Cabe a nós torná-la interessante.

Nancy Houston
(em “A Espécie Fabuladora”)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Humildade - Cecília Meireles

Tanto que fazer !
Livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.
Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.
E os pássaros detrás de grades de chuvas,
e os mortos em redôma de cânfora.
( E uma canção tão bela ! )
Tanto que fazer !
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.


Cecília Meireles

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Falso medo


Uma vez que somos todos humanos, temos tendência a criar um falso problema. Ele existe porque não temos escolha, senão viver segundo um particular e peculiar tipo de mente. Nosso modo de pensar não é o mesmo de um gato, de um cavalo, ou mesmo de um golfinho. Em virtude do mau uso que fazemos de nossa mente, confundimo-nos com dois tipos de medo. Um é o medo comum: quando somos ameaçados fisicamente, reagimos, tomamos uma atitude; podemos fugir, lutar, chamar a polícia. Entretanto, fazemos alguma coisa; esse é o medo comum e natural. Porém, a maior parte de nossa vida ansiosa não se baseia nesse tipo, mas num outro, que é falso.

O falso medo existe porque usamos nossa mente de modo incorreto. Por nos vermos como um "eu" separado, enquanto entidade, criamos várias sentenças com "eu" como sujeito. Elas dizem respeito ao que aconteceu com esse "eu" ou com o que poderia acontecer-lhe, ou com uma maneira de analisar e controlar esses eventos. Toda essa atividade mental praticamente incessante implica uma avaliação contínua e inquieta de nós mesmos e dos outros.

Em decorrência do medo que vem desta falsa imagem, não podemos agir com inteligência alguma; é um medo que tenta manipular e manobrar. Depois de termos "avaliado" uma situação ou uma pessoa, até podemos começar a agir, mas essa ação costuma estar fundada num erro, num pensamento falso sobre a existência de um "eu" separado da ação. Podemos ter os seguintes pensamentos: "Talvez eu não consiga tirar aquela nota"; "Talvez eu não impressione"; "Posso acabar sem nada"; "Sou importante demais para lavar a louça". Forma-se um sistema peculiar de valores a partir de pensamentos em primeira pessoa como esses, segundo o qual nossa preferência é valorizar apenas as pessoas e os acontecimentos que, esperamos, venham a manter ou a estabelecer uma vida segura e tranqüila para esse "eu". Depois de nos avaliarmos, desenvolvemos várias estratégias para a preservação dele. Costumávamos dizer, no tempo da psicologia pop do sul da Califórnia, "tenho de amar a mim mesmo". Mas quem está amando quem? De que maneira é possível um "eu" amar "a mim mesmo"? Sentimos que "tenho de amar a mim mesmo, tenho de ser bom para comigo mesmo, tenho de ser bom para com você". Há um medo imenso por trás desses julgamentos, medo que não realiza coisa alguma. Temos um "eu" fictício que tentamos amar e proteger. Passamos a maior parte de nossa vida jogando esse jogo inútil. "O que acontecerá? Como será? O que vou tirar disso tudo?" Eu, eu, eu: é um jogo mental ilusório, e estamos perdidos dentro dele.

Nossa suposição é que, logo que percebemos que estamos vendo o jogo, ele cesse, mas não é o que se dá. E como dizer a um alcoólatra que não fique bêbado. Estamos perpetuamente embriagados. Darmos ordens a nós mesmos o tempo todo, insistindo para agirmos de modo correto, de nada adianta. "Não vou ser assim" não é a resposta. Qual é a resposta? Precisamos enfrentar esse problema de um outro ângulo, temos de entrar pela porta de trás. Primeiro, precisamos tomar consciência de nossa ilusão, de nossa embriaguez. O texto antigo diz: ilumine a mente, dê-lhe luz, preste atenção. Isso não é o mesmo que auto-aperfeiçoamento, tentar consertar a própria vida. É shikan: apenas ficar sentada, vivenciar, conhecer as ilusões (as sentenças em primeira pessoa) como são.

Não é que "eu" ouço os pássaros. É só ouvir os pássaros. Permitam-se ser o ver, o ouvir, o pensar. Isso é o que significa sentar. E o falso "eu" que interrompe a maravilha com o desejo incessante de pensar sobre "eu". A maravilha está acontecendo o tempo tudo: o pássaro canta, os carros passam, as sensações corporais prosseguem, o coração pulsa; a vida é um milagre a cada segundo, mas ao sonharmos nossos sonhos em primeira pessoa perdemos tudo isso. Portanto, permaneçamos só sentados com o que talvez pareça uma confusão. Sintam-na apenas, sejam essa confusão, apreciem-na. Nessa condição temos possibilidade de ver com mais freqüência através dos falsos sonhos que obscurecem nossa vida. E depois, o que há?

Charlotte Joko Beck,
(em "Sempre Zen")

domingo, 25 de novembro de 2012

Abandonar corpo e espírito


Se abandonarmos corpo e espírito, poderemos entrar na casa de Buda.
A ação surgirá através do corpo de Buda
e só teremos que deixar-nos guiar por ela.

Dogen Zenji

sábado, 24 de novembro de 2012

O cosmo em nós mesmos


Pelo abandono do ego e de todas as coisas, cortando ilusões e desejos do corpo e do espírito, nós nos harmonizamos com o Caminho.

Durante o zazen, abandonamos o ego, bem como a separação do bem e do mal.

Temos de encontrar o cosmo em nós mesmos, além das concepções. Assim podemos encontrar a harmonia perfeita.

Se compreendemos o sistema cósmico, nós não o veremos mais através dos nossos olhos, mas através dos olhos de Buda: os olhos da verdadeira sabedoria, onde não existe mais sofrimento, nem prazer, nem felicidade nem infelicidade.

Taisen Deshimaru
(em "Shodoka - O Canto do satori Imediato")

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A vida não passa de um sonho



O Mestre Takuan estava morrendo.

Um discípulo aproximou-se dele e perguntou qual era o seu testamento. Takuan respondeu que não tinha nenhum. Mas o discípulo insistiu:

- O senhor não tem nada, nada a dizer?

- A vida não passa de um sonho, disse ele. E expirou.

Taisen Deshimaru
(em "Shodoka - O Canto do Satori Imediato")

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O espírito profundo, diante de um fracasso

Diante de um fracasso, o espírito profundo não é afetado; ele continua a ser uma verdade cósmica na nossa vida cotidiana, um verdadeiro Buda, sempre em paz na infelicidade como na felicidade. Ela é a nossa vida interior, solitária, como durante o zazen.

O exterior pode estar sujo e ferido, mas o interior mantém-se puro e invulnerável. Assim se cria a harmonia com todo o universo, com todos os humanos.

A flor de lótus brota do lago lamacento.

Taisen Deshimaru
(em "Shodoka - O Canto do Satori Imediato")

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Basta existir para se ser completo.

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.


Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
(em "Poesia Completa de Alberto Caeiro")

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Carma e Causalidade


A lei da causalidade aplica-se a tudo que sucede, é expressa na segunda Nobre Verdade, tudo tem causa. Carrma é um conceito que se aplica a uma ação que tem intenção, um EU por trás dela.

O carma do qual está livre o homem iluminado é o da geração de um carma próprio, que se aplica a ele mesmo, e seria sem sentido dizer que suas ações não geram frutos cármicos no mundo, seria como se ele atirasse uma pedra na água e esta não gerasse mais ondas, o que é absurdo.

Em vários textos zen está expresso que o motivo é que não tendo um eu não há como haver uma geração de um carma próprio. Algo a que este possa aderir. Mas isto não significa que as ações de um iluminado não geram causalidade, consequências.

Vê-se curiosamente que o hábito de usar a palavra carma para todos os sentidos, tais como fruto (vipaka) ação (carma) e mesmo causalidade, vem já de muito tempo e causa confusões.

Monge Genshô
(em seu excelente blog "O Pico da Montanha é onde estão os meus pés")

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

"Seu chá está esfriando"


Estudante Zen: "Então, Mestre, a alma é ou não imortal? Sobrevivemos à morte de nosso corpo ou nos aniquilamos? Nós realmente reencarnamos? Nossa alma se divide em partes componentes que se reciclam, ou entramos no corpo de um organismo biológico como uma única unidade? E retemos ou não nossa memória? Ou a doutrina da reencarnação é falsa? Talvez a noção da sobrevivência cristã seja mais correta? Se for assim, temos ressurreição do corpo ou nossa alma entra num reino puramente platônico e espiritual?"

Mestre: "Seu chá está esfriando".

domingo, 18 de novembro de 2012

O Zen é a tua vida diária


O caminho não se expressa mediante tua compreensão intelectual; nossa postura diante da vida e nosso caráter são o caminho.

O Zen é a tua vida diária. Se vais tomar banho, deves criar uma vida nova em teu banho. Quando entras na banheira, ali mesmo deves retornar à tua vida espiritual. O zen se refere a preencher de ar fresco a nossa vida diária.

Iluminar-se não significa aprender novos conceitos. Iluminar-se significa criar a própria de novo. Significa viver a própria vida como novidade a cada instante.

Se não te apegas a ti mesmo, viver não é tão difícil. Só porque te apegas a ti mesmo tudo parece complicado e problemático.

Para sair do beco sem saída de tua vida, deves contemplar o universo em sua totalidade, sem dar preferência a nenhum detalhe. Se contemplas o universo em sua totalidade os conceitos rígidos em que se baseiam tuas ilusões desaparecerão por si mesmos.

Kodo Sawaki
- foto de Dewan Irawan