sábado, 9 de maio de 2026

O libertador é justamente o que Krishnamurti e o Zen raiz batem na tecla: a percepção tem que ser fresca, agora. No segundo seguinte, se você guarda a percepção como uma memória ou um troféu, ela já virou um conceito e a armadilha se fechou. Por isso o Zen é tão alérgico a explicações.

Essa é a grande ironia: o ego é um mestre do disfarce. No momento em que você tenta matá-lo através de um conceito (como o "vazio" ou o "não-eu"), ele se apropria dessa ideia e passa a se orgulhar de ser "alguém que compreende o vazio".

Vira o que muitos chamam de materialismo espiritual. A pessoa deixa de ser escrava do consumo material para ser escrava de uma estética de desapego. No Ocidente, onde temos uma fome enorme de identidade e performance, essa armadilha é quase inevitável.

"Antes da iluminação, cortar lenha e carregar água; depois da iluminação, cortar lenha e carregar água".

A ausência de ego não é um transe místico, é fazer o que precisa ser feito sem que o "eu" esteja lá reivindicando a autoria ou o resultado.

Krishnamurti dizia que "a liberdade é o primeiro e o último passo". Ela nasce quando você compreende a estrutura do seu próprio condicionamento. Se você entende por que age, a ação deixa de ser uma reação cega.

Para Krishnamurti, a meditação não era um exercício de concentração (que ele via como uma forma de esforço do ego), mas sim um estado onde a fronteira entre o "eu" e o "mundo" desaparece.

Ele descreve a natureza sem os rótulos usuais. Em vez de "eu vi uma árvore", o texto transmite a "árvore acontecendo". O ego se dissolve quando cessa a necessidade de julgar, comparar ou possuir a experiência.

Para ele a meditação só ocorre quando o pensamento (que é o ego) se percebe limitado e silencia. Ele enfatiza que, se você sabe que está meditando, você não está meditando — é apenas o ego se dando tapinhas nas costas. A verdadeira contemplação é um estado de vulnerabilidade total, onde não há ninguém ali para dizer "estou em paz".


quinta-feira, 7 de maio de 2026

Segundo Dogen, a pessoa ou o eu não se torna “iluminado” porque não há um indivíduo separado para iluminar-se. Pelo contrário, o próprio universo já está perfeitamente iluminado e, como não somos diferentes do resto do universo, podemos participar disso a qualquer momento por meio da prática. Como tudo já está perfeito, já está iluminado, não descobrimos nosso próprio “despertar”. Em vez disso, expressamos continuamente o despertar perfeito de todo o universo. 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Onde não há palavras, onde não há conceitos, onde não há dualidade entre o 'eu' e o 'outro' — ali reside a entrada para o Darma.


Vimalakirti 

A iluminação não é encontrada no isolamento, mas nas paixões e nas aflições dos seres vivos. Não se pode encontrar o lótus no topo da montanha seca; ele nasce do lodo úmido.


Vimalakirti 

Se você acha que só está praticando quando está meditando em silêncio, você ainda não entendeu o Darma. A prática ocorre enquanto você lava a louça, negocia um contrato ou conversa com um amigo.


Vimalakirti 

A verdadeira meditação não é apenas sentar-se em silêncio, mas manter a mente imperturbável enquanto se participa das atividades do mundo.


Vimalakirti 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Todo e qualquer elemento do dharma é ele mesmo a realidade última. Mesmo uma única partícula é imóvel e não admite o menor deslize. O mundo inteiro, tal como é, é o que se chama Genjo koan.

Portanto, Genjo koan é a estrada do darma para o mundo inteiro. Discriminação e não discriminação são ambas Genjo koan. Dizer que não discriminação é Genjo koan, porque ele é o reino do darma da não dualidade, e que o mundo da discriminação não é, porque ele é a mente de medir o pensamento, não é Genjo koan.

Cada elemento do mundo discriminado é em si mesmo Genjo koan. 


Bokusan Nishiari 

Em resumo, no que diz respeito à delusão e à iluminação, as pessoas comuns tentam chegar à iluminação varrendo a delusão. Elas podem pensar que delusão é existência falsa e iluminação é existência verdadeira. O Genjo koan a que se refere aqui é diferente. Entre todos os seres, não existe uma única existência que seja um erro. Delusão é o Genjo koan da delusão. Não é que tenhamos iluminação excluindo a delusão. Iluminação é o Genjo koan da iluminação. Não é que escapamos da iluminação e caímos na delusão.


Bokusan Nishiari

Dogen nos convida a ser como um espelho: o espelho não sai correndo atrás das imagens para refleti-las; ele simplesmente permanece vazio e permite que as imagens venham e se mostrem. 

domingo, 26 de abril de 2026

Se você acolhe o seu medo, respira e o transmuta em presença, você não está apenas se curando; você está oferecendo "não-medo" para todo o sistema.

Diz-se que quando um mestre Zen está em paz, uma sala inteira se acalma. Da mesma forma, se você está em pânico, você contribui para o pânico global.

Quando você sente medo, suas microexpressões, seu tom de voz, suas decisões e sua energia mudam. Isso afeta quem está ao seu redor, que por sua vez afeta outros.

Autores como Thich Nhat Hanh sugerem que as emoções são como "fumaça" ou "perfume". Se você queima incenso de medo, o ar de toda a sala fica impregnado. A humanidade compartilha uma "consciência de base"; quando um indivíduo gera uma emoção, ele está alimentando esse reservatório coletivo.